Para fazer o bem, na verdade, você precisa fazer algo

Daniel Fernandes

04 de setembro de 2015 | 07h20

Em certos momentos, buscamos uma resposta dentro de nós, mas não a encontramos. Isso porque não estamos ali. Estamos lá fora em uma vida automática e automatizada. Vivemos com base no parâmetro dos outros. Esperamos ser o que os outros esperam de nós. Mas esta espera é em vão. São poucos os que realmente esperam algo de nós e esperam por isso.
Mas os poucos que realmente importam não esperam nada dos outros. É pouco se importar com isso. Esses poucos não esperam, fazem. Um pouco de cada vez, um pouco maior a cada vez. E melhor todas às vezes.
Esses poucos que importam são os que se importam com os outros. Não ficam buscando respostas dentro de si, mas se tornam a resposta para os seus grandes questionamentos. Em vez de só se horrorizarem com a crueldade do mundo com um like ou share, empreendem com causa e propósito.
É possível melhorar a qualidade da educação básica no Brasil? Claudio Sassaki, co-fundador da Geekie acha que sim. Danielle Brants da Guten News também. E Roberto Tesch da Edukar investe nisso. Trocaram carreiras vitoriosas em bancos de investimentos e multinacionais para tentar achar soluções para aumentar a eficiência do aprendizado, incentivar a leitura e financiar o estudo de jovens carentes e de alto potencial.
Por que os menos favorecidos não podem viver em moradias mais dignas? Fernando Assad, Marcelo Coelho e Igiano Souza acreditam nesta possibilidade. Eles criaram o Programa Vivenda que desenvolveu kits de reformas para a população de baixa renda.
Guilherme Braga se incomodou com as condições de trabalho dos deficientes físicos. O sujeito até pode ter uma limitação, mas isso deveria limitar sua capacidade profissional? Desse questionamento surgiu a Egalitê, uma plataforma de emprego para pessoas deficientes que podem ser muito mais eficientes que seus colegas de trabalho.
E os cavaleiros brasileiros do apocalipse que emperram a educação, habitação e trabalho não estariam completos se a saúde não fosse mencionada.  Os mais pobres que precisam de medicamentos, exames e tratamentos gratuitos fazem o quê? O médico Fernando Fernandes poderia ficar só reclamando (reclamar é importante).
Mas ele criou o Saútil, uma espécie de Google para serviços públicos de medicamentos, vacinação, consultas, exames, equipamentos e unidades de saúde. Vai resolver a ineficiência do SUS ou da falta de investimento público na saúde, não. Mas pelo menos poupa o tempo da pessoa que precisa do serviço.
Os menos favorecidos irão sorrir mais? Na Rede MultiOrto, talvez. O dentista Orestel Maciel criou uma rede com mais de 20 clínicas odontológicas no Nordeste especializada em atender a população de baixa renda. No final do dia, ele sabe que não apenas oferece tratamentos ortodônticos, mas aumenta a autoestima e a empregabilidade destas pessoas.
Todos esses empreendedores lideram o que vem sendo chamado de negócios de impacto social. São iniciativas em que os empreendedores querem ganhar dinheiro, mas também querem ter impacto social, ajudando a resolver problemas sociais de forma sustentável e meritocrática.
É pouco? É pouco. Mas são os poucos que se importam e que fazem a diferença. “Para fazer o bem, na verdade, você precisa fazer algo” – é a frase de Yvon Chouinard, empreendedor da Patagonia, uma pequena, mas impactante marca de roupas e equipamentos esportivos nos Estados Unidos que tem feito as empresas gigantes se curvarem.
Marcelo Nakagawa é diretor de empreendedorismo da FIAP, professor de empreendedorismo do Insper e tem contribuído (um pouco) com a Artemísia

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