Os ‘mal servidos’ do sistema financeiro brasileiro

Os ‘mal servidos’ do sistema financeiro brasileiro

Análise minuciosa mostra que a bancarização dos brasileiros não está associada à plena inclusão financeira

Maure Pessanha

03 de julho de 2019 | 14h13

O Brasil possui um setor financeiro sofisticado, robusto e celebrado mundialmente pela inovação tecnológica, mas enfrenta uma dicotomia: esse sistema não atende integralmente a população, sobretudo a de menor renda. O país possui um contingente significativo de underserved – termo em inglês que designa os “mal servidos” pelo sistema financeiro tradicional. Uma análise minuciosa mostra que a bancarização dos brasileiros não está associada à plena inclusão financeira. Ao contrário, abrir uma conta sem oferecer qualidade no serviço gera um grupo de cidadãos e consumidores mal servidos pelo sistema financeiro – um público com acesso a produtos e serviços caros e não adequados às suas reais necessidades.

A questão central é que ter acesso a uma conta, ou a um serviço financeiro, não se converte, necessariamente, no uso desses produtos, ou no bom uso. Aliás, falta de uso denota pouca adequação de alguns dos serviços existentes às necessidades da população de menor renda.

Guilherme de Almeida Prado é fundador da KeroGrana, uma fintech que trabalha com empréstimos online para população de baixa renda. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Com esse desafio no horizonte, as fintechs que se propõem gerar impacto social positivo têm hoje o momento ideal para resolver os gargalos do sistema financeiro por uma confluência de fatores: são negócios que estão no centro do debate sobre a evolução da relação entre população e finanças – nunca houve tanto dinheiro disponível para captação –; e a evolução tecnológica propicia soluções digitais para temas simples e também complexos como o blockchain. Em um contexto no qual 112,4 milhões de pessoas vivem com até R$ 22 por dia – cerca de 60% da população do país – os serviços financeiros adequados, acessíveis e que agregam educação para o uso mais consciente e saudável do dinheiro são essenciais, mas escassos.

Para analisar os desafios dos serviços financeiros, o papel das fintechs e as oportunidades para empreendedores de impacto social, a Artemisia conduziu a Tese de Impacto Social em Serviços Financeiros, um amplo mapeamento setorial que contou com o apoio do ANDE (Aspen Network for Development Entrepreneurs) Catalyst Fund, por meio do patrocínio da MetLife Foundation e consultoria técnica do Plano CDE.

A análise traz tópicos que explicam o conceito de inclusão financeira, as mudanças regulatórias que apresentam oportunidades e cases de startups de impacto social promissoras que criaram soluções inovadoras para possibilitar a inclusão financeira de muitos brasileiros. Para os interessados em entender melhor essa indústria, o conteúdo pode ser acessado gratuitamente.

 * Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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