O tempo certo de errar

Daniel Fernandes

26 de agosto de 2015 | 07h07


Diversas culturas abominam o erro. Acreditam que se você errou, você é um perdedor. No Vale do Silício, uma região ao norte da Califórnia que foi berço para as maiores empresas de tecnologia do mundo, a visão quanto ao erro é bem diferente. O erro é bem-vindo, desde que você tire um aprendizado dele, pois dessa maneira, estará mais perto de acertar da próxima vez que tentar.
Toda história de sucesso que conheço teve muitos tropeços até encontrar o acerto. Visitei recentemente o escritório de uma empresa brasileira que abraçou o erro como aprendizado, e que, com isso, descobriu que existe um tempo certo para errar. E a hora certa de focar quando encontrar um acerto. A Movile é uma empresa brasileira de tecnologia que desenvolve plataformas de comércio e conteúdo para celulares, smartphones e tablets.
Fundada em 1998 em Campinas, como uma startup, tem hoje escritórios espalhados em regiões estratégicas da América Latina e também no Vale do Silício. No início das atividades, o foco do negócio estava em SMS. Com os avanços tecnológicos, eles se reinventaram e assumiram o DNA de criar projetos inovadores. Em 2012, quando já estavam consolidados no Brasil e América Latina, foram para o Vale do Silício com a meta de encontrar um projeto global para o qual pudessem se dedicar. Foi então que começou uma nova página na história da empresa.
No Vale, eles aprenderam que muito do que pensavam eram hipóteses e não fatos e era importante testar as ideias antes de investir tudo em uma opinião. Eles perceberam que deveriam desenvolver vários mini projetos até encontrar aquele que seria responsável por ter grande aderência. Porém, cometeram um erro que consideram o maior de todos: o primeiro projeto demorou quatro meses para ser feito. Ou seja, demoraram quatro meses para errar.
Quatro meses em uma região como o Vale do Silício, trabalhando com tecnologia, é muito tempo. Foi então que descobriram que teriam que errar mais rápido e, para isso, deveriam fazer testes numa velocidade maior. Uma semana seria suficiente. A regra era simples: arriscar, fazer rápido, testar, melhorar, aprender, testar de novo e, se necessário, matar o projeto.

Em um ano e meio, a Movile desenhou mais de 40 projetos, mas só um foi levado adiante: o aplicativo Playkids, que se tornou um grande sucesso em todo o mundo. Quando a empresa percebeu que aquele seria o projeto que teria grande aderência, ela focou muito para desenvolvê-lo – a ponto de matar os outros projetos que não estavam dando certo. Atualmente, o Playkids é o aplicativo voltado para crianças mais rentável do mundo. No Brasil, é o segundo mais bem-sucedido em receita de toda loja de aplicativos.
A velocidade em criar e testar projetos, a capacidade de tomar riscos e a capacidade de pensar grande são os maiores diferenciais da brasileira Movile. Quando estamos diante de duas possibilidades: travar e estagnar, ou arriscar e aprender, escolher a última pode ser decisiva para o crescimento de uma empresa no mundo de hoje.
* Bel Pesce é fundadora da escola FazINOVA e autora dos livros “A Menina do Vale” e “Procuram-se Super-Heróis”. Apaixonada por culturas empresariais, Bel Pesce explora diferentes cases em sua coluna no Estado PME.

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