O raio gourmetizador só não faz chover; que pena

Daniel Fernandes

28 de janeiro de 2015 | 06h10

Leo Spigariol escreve toda quarta-feira no Blog do Empreendedor
Trovoadas de raios gourmetizadores! Será que é chover no molhado? Nas últimas semanas, o tema tem sido bem discutido e comentado nas mídias sociais e blogs sobre essa questão do termo, que tem soado quase como uma ofensa para uns e piada para outros. Para entendermos um pouco onde isso vai parar, precisamos voltar um pouco no tempo.
Essa geração ultra-conectada, que vive de regrans e compartilhar, talvez não tenha acompanhado toda a história do assunto. Então vamos recordar.
Até final do anos oitenta, as regras de importação no Brasil impunham uma série de  restrições e encargos aos produtos importados. Logo, nossa economia era protecionista e fechada. Quem visitava um mercado (naquela tempo, supermercado era coisa rara) encontrava poucas opções de marcas e, sobretudo, poucas opções de combinações de ingredientes gastronômicos. Biscoitos? Acho que tinha meia-dúzia de sabores e olhe lá. Azeite, então, talvez duas marcas, sendo uma misturada com óleo de soja.
A baixa qualidade também era um atributo quase que obrigatório. Groselha, por exemplo, que é composta basicamente por açúcar e aroma artificial, era a sensação. Como éramos ingênuos!
Minha mãe nunca me disse para não tomar groselha. Simplesmente porque ela não tinha acesso à informação. Com a abertura de mercado e a possibilidade de importação de produtos fabricados nos quatro cantos do mundo, iniciamos um processo de transformação e, sobretudo, de aprendizado por parte do consumidor, passando a entender porque aquele uísque vindo da Escócia era melhor do que aquele fabricado por estas bandas de cá, muitas vezes composto por aroma artificial e sem tradição no “fazer”.
Nosso uísque era fabricado somente para vender e ninguém questionava isso. Simplesmente engolia. Nós, cidadãos e consumidores temos um papel fundamental nesse processo gourmetizador: ter repertório para cada vez mais sermos exigentes e seletivos em nossas escolhas.
Se nos depararmos com as perspectivas futuras, consumir menos e melhor talvez seja a forma mais sensata e lógica. O termo gourmet nada mais é do que uma forma encontrada pela mercado para denominar produtos que possuem algum tipo de combinação e alma em seu processo de produção, valorizando cada ingrediente de sua composição. Não se trata de mais um biscoito cheio de gordura hidrogenada cuspido em série por uma máquina.
Noutro dia, um sujeito apareceu em nossa fábrica querendo nos vender uma pequena fábrica de maionese, mostarda e catchup em sachês. E o mais incrível foi a empolgação do sujeito contanto vantagens do negócio: com um quilo de extrato de tomates, ele faz quase uma tonelada de catchup em sachês.Absurdo! O sujeito faz um produto de tão baixa qualidade porque basicamente existe demanda. Afinal, alguém há de comprar.
O raio gourmetizador, por mais irônico que seja, tem sim seu papel fundamental em ajudar a mostrar e formar repertório para as pessoas. Só assim conseguiremos, quem sabe um dia, comer catchup de sache com tomates de verdade.
É uma pena que as trovoadas de raios gourmetizadores não façam chover, pois a situação está para lá de crítica.
Abraço e até a próxima quarta.

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