O que a franquia social e o design thinking têm em comum?

O que a franquia social e o design thinking têm em comum?

Com viés positivo e inovador, o design thinking pode levar a ONGs, como no conceito da franquia social, abordagens empresariais para elas se tornarem autossustentáveis

Ana Vecchi

05 de agosto de 2019 | 10h36

Já li definições variadas de design thinking, sendo uma das mais simples a que fala da “maneira de pensar, que exige um olhar mais humano e onde as partes devem estar apaixonadas pelo problema, não pelo produto ou pelo serviço”.

Esta definição me vem à mente porque surge uma ONG: existe um problema comum a um grupo de pessoas, que se apaixonam pela possibilidade de solucionar tal problema, abrandar sensações (ruins ou tristes) e, ainda, têm a missão de gerar empatia em pessoas que possam gerar insights e/ou organizar, de forma simples e lógica, o contexto da situação-problema. Uma vez decodificado o problema, partem para criar soluções, sugestões criativas e respostas às inúmeras perguntas existentes.

Ambos, o design thinking e a franquia social, partem de um modelo mental que, se apoiados por algumas ferramentas, podem propiciar jornadas de inovação – que são verdadeiras necessidades, mais do que nunca, como forma de sobrevivência de ONGs e empresas! O que os diferencia, porém, é que o design thinking tem uma conotação positiva, criativa, gera engajamento e provoca mudança de comportamento mais fácil, me parece.

Já as ONGs nascem de carências, ou problemas, de saúde, educação, lar, nutrição, amor, respeito ao meio ambiente e a busca de soluções, muitas vezes, de forma recorrente, viciada, sem uso de criatividade e, por conta de alguns, falham na credibilidade. Daí vem o viés negativo.

As equipes de inovação têm sido provocadas a pensar diferente, a (re)aprender, transformar a forma de olhar um problema, de forma mais humana, tendo que desenvolver empatia pelo problema e colocá-lo num contexto. É preciso entender as necessidades de quem vive aquela dor, situação e/ou problema. No que isso se difere de entender o propósito de uma ONG e a quem ela atende?

E como sermos criativos nas propostas de soluções a elas – ONGs – que cuidam de crianças, bichos, flora, rios e oceanos, deficientes, pessoas desnutridas, sem dentes, sem roupa, sem lar e as com vícios letais?

Entre 1998 e 2000, criamos o conceito de franquia social, com o propósito de trazer às ONGs ferramentas e abordagens de práticas empresariais para estruturá-las e se tornarem autossustentáveis, além de poderem replicar seus modelos de assistência ou atendimento a outras ONGs com contextos similares.

Estimular o olhar humano, nestes caso, não se mostrou necessário, pois nascem a partir dele, assim como ter pessoas no centro das decisões para criar as soluções que impactem as vidas dos assistidos é uma realidade comum às ONGs. Porém, não é possível pensar em viver “apenas” de doações, patrocínios. Um dia eles se vão e, novamente, vidas são postas em risco.

Ativistas da ONG Educafro durante ato na Fashion Rio em 2012. Foto: Wilton Júnior/Estadão-7/11/2012

Vimos que era fundamental criar estruturas viáveis financeiramente, uma vez que tecnicamente já eram profissionalizadas. Havia e há até hoje filas de espera para as necessidades que comentei anteriormente, portanto são propostas desejadas pelos usuários das soluções que as ONGs promovem! E há quem queira investir, mas não sabe em quem, porque não conhece o histórico e quem está por trás daquela “marca”.

E volto ao design thinking, com a inspiração de trabalharmos as ONGs com modelos de estruturas empresariais inovadoras, replicáveis para atender, educar, curar mais e mais crianças, jovens, adultos, plantar inúmeras árvores (frutíferas seria maravilhoso), recolher bichos abandonados nas ruas e cuidar deles, promovendo a adoção de pets que farão os pet shops lucrarem, por exemplo. Criar um círculo virtuoso, colaborativo e interativo, de inovação, diferenciação e solução em rede = franquia social!

Meu foco sempre foi criar soluções criativas que permitam a solvência de um problema ainda maior: fazer uma ONG não apenas sobreviver, mas viver com a geração de seus próprios recursos, gerar empregos, ter profissionais e não apenas voluntários, ter credibilidade e atrair investidores que trabalhem como conselheiros de administração e alavanquem recursos.

Entendendo a jornada dos clientes e familiares das ONGs, as necessidades de todos os envolvidos nos propósitos de cada entidade que atendemos, criando padrões onde é possível e flexibilizando onde for preciso, podemos capilarizar e fazer mais com menos. Como uma startup, que nasce sem dinheiro, com muitas ideias, jovens inovadores e inexperientes, aguçados por soluções, apaixonados por uma proposta e crentes que serão unicórnios logo.

Com esta paixão de líderes mais experientes, vivenciei histórias lindas na Educafro, na Doutores da Alegria, AVAPE, Greenpeace, entre tantas outras maravilhosas, como consultora, começo a participar do Projeto Amor a Mais, nesta semana, com a equipe da MEDMAIS Serviços Médicos, criando e coordenando as ações que levarão às famílias de Riacho Frio e Corrente, no interior do Piauí, muito de tudo o que precisam para terem alegria para levantar e pensar que vale a pena viver.

Que há pessoas com olhar humano para elas, que vivem quase sem água, comida e não fazem ideia do que bem-estar significa. Vou aplicar design thinking para elas e traremos fotos que comprovam que design thinking significa colocar amor no que você faz e por quem você faz. Vem comigo?

Ana Vecchi é consultora de empresas, CEO na Ana Vecchi Business Consulting, professora universitária e de MBAs, pós-graduada em marketing e com MBA em varejo e franquias. Atua no franchising há 28 anos em inteligência na criação e na expansão de negócios em rede.

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