O fim da gourmetização – e já vai tarde

Daniel Fernandes

17 de dezembro de 2015 | 06h04


A crise de 2015 vai ganhar um capítulo especial na história da gastronomia brasileira como o empurrãozinho que encerrou definitivamente a gourmetização.
Estou torcendo para que o consumidor, frente à nova necessidade orçamentária, considere melhor suas escolhas e desmascare o que não vale o preço cobrado. Isso vai permitir o retorno à essência de uma boa alimentação, com preço justo.
Na última década o Brasil viveu uma intensa e exagerada busca por sabores e experiências gastronômicas. E na esteira desta demanda surgiram oportunistas oferecendo produtos com uma roupagem sofisticada, mas que, quando analisados friamente, não correspondiam ao valor cobrado.
Temperando esta situação toda também tivemos a invasão no mercado de uma grande quantidade de autoproclamados “chefs de cozinha” – muitos deles decididos a reinventar a roda e fazer fama e fortuna no fogão, mas com resultados pra lá de estranhos.
Este fenômeno, sem dúvida, foi também potencializado pela crescente quantidade de pessoas interagindo via mídias sociais, onde a descrição detalhada de cada ingrediente virou assunto de muitas conversas, ainda mais quando acompanhados fotos com muito “appetite appeal”.
Chegava a ser divertido, e eu mesmo entrei na brincadeira por um tempo, não fosse realmente preocupante ver a facilidade com que os consumidores desatentos faziam filas para pagar caro por produtos corriqueiros.
Aqui uma lista (real) de produtos que ostentaram o título de gourmet: pipoca, coxinha, pastel, cachorro quente, bolovo, brigadeiros, hambúrgueres, bolos, sorvetes, churros, café, e por aí vai… Nem se fala de acessórios gourmet: aventais, facas, temperos, azeites, livros, etc.

E até a marmita gourmet tivemos. Quando até a ração de pets domésticos passou a ostentar a palavra gourmet, virou chacota. Que atire a primeira pedra quem nunca gourmetizou! Sem dúvida, você, assim como eu, também caiu em algum dos contos acima.
Quando as coisas pareciam que iam se acalmar, chegou o momento dos food trucks e food parks “gourmetizarem” a trivial e simples comida de rua. Não sem antes aparecerem os programas de TV com crianças gourmet. Para tudo!
O fenômeno escancarou a eficiência de uma das grandes ferramentas de marketing, que é a diferenciação forçada, ou seja, a procura do diferente apenas para ser diferente. Nem sempre com uma necessidade real de consumo ou de capacidade qualitativa do produto.
Também apareceu rapidamente a maior fragilidade da ferramenta: a banalização. E, então, por sorte, começou a cair a ficha dos exageros – e de muitos engodos – que essa ‘tendência’ escondia.
Como sempre tento ver o lado bom de tudo, eu realmente espero que esta crise determine o encerramento definitivo da, assim chamada, gourmetização.
Porque acredito simplesmente que a maioria das pessoas quer uma comida boa, por um preço justo. Saudável, fresca, sem conservantes, feita por pessoas dedicadas no propósito.
Isso me motiva e considero uma missão. O resto, é pura frescura.
Ivan Primo Bornes – em busca da simplicidade como método!

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