O estigma do franchising: como o preconceito afeta o sistema de franquias

O estigma do franchising: como o preconceito afeta o sistema de franquias

Generalizar é ruim em qualquer circunstância: há quem acredite que o sistema é fonte de milagres, que tudo se resolve comprando franquias, e os que defendem que é tudo enganação

Ana Vecchi

23 de setembro de 2021 | 16h30

Ao mesmo tempo em que o franchising é tão reconhecido por diminuir o risco de um novo negócio para quem empreenderá pela primeira vez, devido à experiência adquirida pelo franqueador com a implantação e a gestão da marca, este modelo de negócio desperta desconfiança, percepções negativas e posso dizer que, inclusive, preconceito.

O juízo de valor preconcebido sobre algo que se pauta em uma opinião construída sem total conhecimento do ocorrido, mas com alguma reflexão, se dá por histórias ouvidas, casos de franqueados que quebraram, master franquias que entraram no Brasil ou marcas que internacionalizaram e saíram de cena, expansões agressivas e o efeito dominó em que as franquias foram fechando dois ou três anos depois de parecerem sucesso garantido.

Duas falas chamaram minha atenção, em reuniões distintas, de quem tem interesse em franquear ou usar este modelo como base para construir a estrutura para replicação do negócio. Ou seja, não nos reunimos para falar mal do franchising. O oposto! Me contrataram para usar o modelo como pilar de sustentação dos novos negócios. Uma das falas era:

  • “Uma rede de franquias é tudo a mesma coisa, é mais do mesmo.”

Planejamento, posicionamento de marca, gestão, ferramentas, processos, metodologias e pessoas são essenciais para sua franquia dar certo. Foto: Unsplash

Sabe quando dói ouvir uma afirmação tão contundente? Ainda que naquele momento tivesse a conotação “positiva” de que é mais fácil replicar, dá menos trabalho, algo como ctrl c + ctrl v? Não era uma crítica, mas senti assim, porque não é desta forma que funciona!

Para a prática do bom franchising, já falei tanto de planejamento, posicionamento de marca, gestão, ferramentas, processos, metodologias e pessoas. E é aí que mora o problema, talvez. Também já escrevi milhões de letras a respeito da responsabilidade e o oposto dela, na escolha deste modelo de negócio que, por anos, foi definido como estratégia de expansão. 

Ok, isso é detalhe. Mas franquia parecer mais do mesmo é consequência dos empresários que a fazem se assemelhar a esta definição. A segunda fala que chamou minha atenção:

  • “Os caras não deram certo aqui no Brasil, sendo que operam bem em dezenas de países do mundo, porque resolveram tupiniquizar o sistema ao jeitinho brasileiro!”  

Topicalizar não significa tupiniquizar, mas há que se fazer adequação de produtos, serviços, atendimento, legislação e sistemas à cultura nacional, pois ser 100% idêntico no mundo é pura lenda. Nem nacionalmente funciona assim. O ponto nesta questão é que, o que quer que se faça de “errado” e que não funcione bem na expansão da marca, principalmente para quem entende bem do mercado de atuação, tem um motivo depreciativo que nem sempre é o real. 

Lógico que houve escolhas erradas que trazem, por consequência, o fechamento de unidades em locais que não dá para acreditar, crescimento da rede de forma absurda, o “10 anos depois estão só desse tamanho, com o potencial que existe neste mercado?!”, até a saída de marcas do País. 

Quem fez as escolhas? Quem trouxe a marca e delegou a quem a expansão e a gestão da rede? O propósito dessas pessoas está alinhado ao da empresa? Sim e não, neste caso, podem ser ambos perigosos:

  • Sim do bem: ambas as partes querem o melhor para marca, envolvidos, inclusive consumidores.
  • Sim do mal: ambas só querem ver o dinheiro, do jeito mais fácil e rápido.
  • Não do bem: a marca quer o melhor para todos os envolvidos e o gestor tem uma visão imediatista.
  • Não do mal: têm propósitos distintos, mas seguem em frente e depois veem o que fazer para remediar.

E aí é o franchising que carrega a fama de sistema ruim. Generalizar é ruim em qualquer circunstância. Há quem acredite que o sistema é uma fonte de milagres, que tudo se resolve comprando ou vendendo franquias. E os que defendem que é tudo uma enganação.

Sabe quem sofre o mesmo estigma? Consultores e advogados: “Tudo a mesma coisa, copiam e colam tudo, falam o que a gente já sabe e cobram caro para isso.”

Se for dessa forma, custa uma fortuna! Se for ao contrário, “está de graça” para ter a melhor empresa do setor! A história conta os detalhes de cada escolha que fazemos ao investir em pessoas. 

* Ana Vecchi é consultora de empresas, CEO na Ana Vecchi Business Consulting, professora universitária e de MBAs, pós-graduada em marketing e com MBA em varejo e franquias. Atua no franchising há 28 anos em inteligência na criação e na expansão de negócios em rede.

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