O empresário brasileiro deveria gostar do empresário brasileiro

Daniel Fernandes

11 de junho de 2014 | 06h58

Leo (direita) escreve toda quarta-feira
Na semana anterior, tratei um pouco sobre a importância de nós, empreendedores, buscarmos fornecedores nacionais em nossa cadeia produtiva. Na ocasião, alguns leitores comentaram que isso era reserva de mercado e protecionismo, e que já havíamos vivido isso no passado e essa atitude trouxe apenas atrasos para o país. Não me entendam mal, creio que a questão ficou um tanto em aberto. Acabei não me aprofundando o suficiente numa questão aparentemente simples: valorizarmos os brasileiros. Valorizarmos a comunidade, ou seja, o comum a nós mesmos.
Tenho lido muito sobre o acelerado desenvolvimento que Israel vem passando nas últimas décadas e, ao contrário de que a grande maioria da população brasileira imagina – ou o que passa na novela das oito -, lá, sim, é um lugar extremamente focado no desenvolvimento econômico e científico (e consequentemente humano), com uma capacidade admirável de adaptação às situações adversas. Escutei de alguns amigos judeus – que já estiveram por aquelas bandas a trabalho – muitas histórias de dar inveja a qualquer empreendedor.
Daí concluo que nos falta o tal espírito de coletividade. Claro, até chegarmos  à época da Copa Fifa. Época em que ser cool é abraçar a bandeira e ficar emocionado com o hino. Bem, não somente no futebol. Tínhamos Ayrton Senna para nos estimular essa prática tão patriótica.
Precisamos entender o quanto é importante preservarmos nossos parceiros de negócio, nossos fornecedores e nossos consumidores. E o quanto isso reverbera positivamente em um ciclo saudável de nossa economia.
Obviamente, não é da noite para o dia que conseguiremos resultado com essa atitude, até porque estamos sentindo o efeito da globalização, que começou nos anos 90 e que colhemos os frutos mais acentuadamente nos dias de hoje.
Como exemplo, pelo que tenho acompanhado, nossa indústrial têxtil, está sucumbindo. De um modo geral, fazemos o processo inverso da evolução e prosperidade: escravizamos estrangeiros ilegais em confecções quarterizadas. E isso tem sido rotina.
Falta pensarmos como uma nação. E essa efervecência toda nesse momento de Copa talvez possa nos fazer repensar o que vimos fazendo com o Brasil. A regra é: pendura a bandeira do Brasil na sacada porque é Copa. Hoje vi alguns carros com os espelhos retrovisores decorados com a bandeira do Brasil. As pessoas vão até a rua 25 de março, compram todos os acessórios made in China e, aposto, sequer sabem cantar o hino nacional ou hino à bandeira.
Gastamos, por baixo, R$ 15 bilhões para viabilizar o evento e não nos mobilizamos em pequenas atitudes de nosso cotidiano, que ajudam efetivamente a fortalecer nossa vida em sociedade e nossa economia. A luz vermelha acendeu. A bomba vai cair em cheio no alvo e precisamos agir rápido.
É indiscutível que existe uma lista com centenas de outras prioridades, mas uma coisa que aprendi é: tente corrigir as pequenas coisas que passam despercebidas, pois, quando você menos esperar, grandes coisas já estarão mudadas. Quantas vezes você já comprou aquele cdzinho pirata com a coletânea chocante da sua dupla sertaneja preferida? Em Santa Cruz, por exemplo, temos vendedores ambulantes aos montes atendendo esse perfil. E ele só existe porque alguém compra.
A educação é a prioridade zero. Devemos exigir sim do governo escola pública de qualidade, com sistema rigoroso de ensino. Agora, não saber o que significa “Salve lindo pendão da esperança, salve símbolo augusto da paz” e continuar a comprar o cdzinho pirata na porta do supermercado é “tipo assim”: típico brasileiro.
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