O empreendedorismo corporativo se tornou imprescindível para o crescimento das grandes empresas

Daniel Fernandes

08 de julho de 2016 | 11h40


A grande empresa, como a conhecemos hoje, é um dos maiores legados do Século XX. Quem estudou administração vai se lembrar do impacto das abordagens de Frederick Taylor, Henry Fayol e Henry Ford, entre outros, que provaram o papel dos tempos e métodos, da burocracia, da ordem e previsibilidade das operações no aumento da eficiência das organizações. A partir destas abordagens, uma pessoa com pouco conhecimento pode participar da produção de itens complexos como carros, eletrodomésticos e medicamentos.
O mecanicismo das operações começou a sufocar, de certa forma, os operários e funcionários, que assim eram chamados, pois (simplesmente) operavam as máquinas e tinham uma função. Mas antes de operários, eram pessoas que tinham necessidades e motivações. Os que não faltaram às aulas de Teoria Geral da Administração irão fazer alguma associação ao papel de Elton Mayo e o desafio de lidar com os aspectos psicológicos das pessoas na linha de produção e também de outros pensadores como Abraham Maslow e sua Pirâmide das Necessidades Humanas e Frederick Herzberg e sua Teoria dos Dois Fatores (Higiênicos e Motivacionais). O fator humano começou a influenciar na produtividade e os empresários perceberam que isto também era importante para aumentar suas margens de lucro.
A obsessão pela eficiência e lucratividade foi, depois, tangibilizada pela gestão da qualidade. William Deming, Joseph Juran, Kaoru Ishikawa e Shigeo Shingo e tantos outros pais da qualidade permitiram que qualquer organização do mundo que realmente quisesse, pudesse ser eficiente em custos e em qualidade. Organizações japonesas, norte-americanas, europeias, depois sul-coreanas, chinesas, indianas, taiwanesas e agora filipinas, vietnamitas e cambojanas se tornaram verdadeiramente globais por terem preço e qualidade.
Mas na edição de julho/agosto de 1960, o professor Theodore Levitt publicou um artigo com uma questão que intrigou o mundo dos negócios: Por que as maiores empresas do Século XIX não se mantiveram na mesma posição no século seguinte? A resposta era tão óbvia que muitas empresas não se atentaram a isto até hoje. As empresas acreditavam que estavam no mercado do seu produto (ou serviço) e não no do benefício do produto. Desta forma, empresas ferroviárias acreditam que estavam no mercado de ferrovias e não no de transporte. E continuaram a investir no aumento da eficiência e qualidade no transporte de trilhos. Muitas empresas, inclusive grandes corporações ainda sofrem desta Miopia de Marketing, título do artigo do Prof. Levitt.
Mas curiosamente, a história é formada de ciclos que se repetem e novamente muitos se questionam como as maiores empresas do Século XX conseguirão manter sua posição neste século? Esta questão já é clara às empresas de aluguel de carros e ao Uber, às redes hoteleiras e ao AirBnB e às varejistas tradicionais e à Amazon, entre outros exemplos. Mas todas as grandes empresas mais visionárias também estão buscando as suas respostas.
E para lidar com as startups que questionam seus modelos de negócios vitoriosos até então, as algumas grandes empresas também passaram a investir não apenas em startups mas também no empreendedorismo dos seus antigos operários, depois funcionários, colaboradores e agora empreendedores corporativos.
É a visão de dono da empresa que torna os membros do seu time mais empreendedores. E são os empreendedores que vislumbram oportunidades, reagem rápido e transforam ideias em resultados. E que organização, startup ou grande empresa que não quer um profissional assim?
Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP
 
 

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