Nossos heróis não querem mais especular na Bolsa de Valores

Daniel Fernandes

02 de dezembro de 2015 | 11h42

Recentemente, coloquei as mãos em um livro chamado ‘Os Axiomas de Zurique – Os conselhos dos banqueiros suíços para orientar seus investimentos’. Li em menos de uma semana as 155 páginas da obra escrita por Max Gunter em 1985 e que está na sua 27ª edição no Brasil.

Em 1985, o mundo era bastante diferente do atual e a leitura nos dá um panorama sobre a cultura que envolvia o mundo dos negócios nos Estados Unidos naquela época. São recorrentes alguns conselhos de Gunter durante todo o livro: ‘seu objetivo é ficar rico’, ‘você faz especulação, não investimentos’ (e eles são uma espécie de jogo) e ‘resultados são imprevisíveis’. O negócio era faturar alto.
A possibilidade de ficar rico estava ao alcance de todos e você poderia atingir esse objetivo por meio da especulação, por exemplo, na Bolsa de Valores. Eu tinha 9 anos em 1985. E, como criança, não entendia nem um pouco o que era cultura, muito menos a cultura dos yuppies norte-americanos (a palavra significa young urban professionals).
Mas pouco tempo depois eu me tornei jovem. E isso aconteceu em um mundo que já havia mudado um pouco, dando um passo ainda tímido em direção à igualdade. Mas os meus heróis tinham morrido de AIDS. E de overdose. Cazuza, Jimi Hendrix, Janis Joplin….depois Kurt Cobain tirando a própria vida. Uma pena!
Foi assim que eu cresci. E eu não cresci com a intenção de empreender. Para a minha geração, ainda vigorava o esquema: faculdade – bom emprego – uma casa própria e, com sorte, uma aposentadoria boa no banco. Mas aí, quando eu já estava mais ou menos no meio do caminho, surgiu o Vale do Silício. Empreendedores se tornaram os novos ‘rock stars’, os novos ‘pop stars’.
Era possível enxergar neles uma quebra de paradigma, uma mudança na forma de ver a vida, de imaginar o mundo, de idealizar o mundo. Larry Page, Sergey Brin, Steve Jobs…….e preciso me render….Mark Zuckerberg. A sua trajetória, para muitos controversa, ganhou um novo capítulo que mostra exatamente a mudança de paradigma, de cultura do mundo dos negócios.
Mark divulgou que pretende doar 99% das suas ações do Facebook para causas sociais. Hoje, essas ações significam algo em torno de US$ 45 bilhões – muito, mas muito mais do que o prêmio da Mega Sena que saiu para um apostador de Brasília. Ao fazer o anúncio, ele se coloca ao lado de outro herói de ‘novos jovens’ como eu (se vamos morrer cada vez mais tarde, 40 anos não é algo tão ruim assim!): Bill Gates. O idealizador da Microsoft, por sinal, anunciou por esses dias um fundo de US$ 7 bilhões para fomentar o uso de energias mais limpas.
Outro herói dos nossos tempos é o criador da TOMS. Blake Mycoskie criou um negócio em que cada coisa comprada, é doada. Começou com sapatos e expandiu-se para outras áreas. Poderia gastar mais uns dez parágrafos citando gente como eles. Como se vê, nossos (meus) heróis não querem mais especular na Bolsa de Valores. Eles tentam mudar o mundo. Ainda bem.
Daniel Fernandes é editor do Estadão PME
 

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