No Brasil ainda prevalece o cada um por si

Daniel Fernandes

17 de setembro de 2014 | 07h57

Na semana passada, escrevi sobre uma longa conversa que eu e um amigo tivemos a respeito das dificuldades em empreender no Brasil e os planos de mudar sua fábrica para o Estados Unidos. E confesso que não esperava tamanha repercussão.
Em sua grande maioria, os comentários e opiniões eram bastante relacionadas ao simples fato de não termos uma política clara do poder público e entidades, prevalecendo o “cada um por si”. Para mim, o Brasil não é uma nação. Pelo menos nos moldes que idealizo, o que já valeria um post.
Qual o seu ideal de nação? Que lugar é esse que cada um de nós sonha viver e que é realizável quando torna-se um sonho coletivo. Por ora, não enxergo nosso País como nação. Nesta semana, o SOS Mata Atlântica divulgou dados alarmantes sobre a questão do fornecimento de água e que a guerra por água entre SP, RJ e MG é inevitável.  Estamos à beira de uma guerra civil? Se já não bastasse a guerra fiscal e barreiras que temos entre os estados com as substituições tributárias, vamos embarcar num fratricídio?
Não pensamos e não sentimos coletivamente. Não sabemos abrir mão de algo que nos tire algum conforto pensando no outro ou no bem coletivo. Agora, me respondam, como podemos ter realmente orgulho desse País diante dessa desconexão coletiva? Temos belezas naturais, mas não é uma obra coletiva. Caiu-nos no colo. Digo, podemos nos orgulhar de sermos brasileiros, por cuidarmos de nossas crianças e dos idosos?
Buscamos benefícios coletivos, melhoria na saúde e educação, que temos uma população com consciência de seu papel? Isolada e esparsamente.  Você sabe qual o maior calcanhar do INSS? Ao contrário de que a maioria imagina, não são as aposentadorias, mas sim o seguro-desemprego. Quantos de vocês já não ouviram de um funcionário, amigo ou parente que gostaria de fazer um acordo na empresa, continuar trabalhando e receber o seguro-desemprego? Ouço isso com a freqüência do canto dos sabiás na minha região.
Quando opino sobre o assunto e manifesto minha opinião, que, no caso, é entender isso como fraude e, logo, crime, sou atingido por olhares gélidos e censores. A leitura desses olhares é “o trouxa é você, que está fazendo a coisa errada”.
Mas a há fios desencapados por todos os lados. Numa outra faceta do nosso projeto de civilização, vejo algo de maior projeção e muito mais hediondo: refiro-me aos lobos vestidos de lebres: os bancos.
Vejo aquelas propagandas lindas de casais de velhinhos felizes e saudáveis – aparentemente –  sorrindo porque conseguiram um crédito consignado com os bancos. Você já precisou fazer um financiamento de alguma dívida? Então poderia me justificar o fato de a taxa de juros real nunca ser a taxa que está anunciada ou tenha sido proposta? Sempre existe alguma informação em letras miúdas que torna o real irreal. E vice-versa.
E o sistema financeiro gasta milhões para te convencer de que aquilo é bom para todos. Bom mesmo seria se eles falassem a verdade de forma clara e objetiva, sem casal de velhinhos felizes curtindo a aposentadoria com uma mordida no benefício do INSS.
De verdade, me pergunto: será que temos algum projeto coletivo de nação? Avisem-me, se o encontrarem.
 

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