Ninguém jamais acreditou que um ateliê de brigadeiros daria certo

Daniel Fernandes

12 de dezembro de 2012 | 08h19

Juliana enfrentou a resistência até do pai

Começar a Maria Brigadeiro foi um projeto solitário. Ninguém jamais acreditou que uma loja só de brigadeiros pudesse ir para frente.Quando decidi encerrar minha carreira de 10 anos no jornalismo para abrir o que chamei de “ateliê de brigadeiro gourmet”, todos acharam que eu tinha enlouquecido. Ninguém, nem mesmo meu pai, acreditava na ideia.
Meu sonho? Provar que o brigadeiro era bem mais do que um doce de festa de criança. E como eu faria isso? Propondo melhorias na receita e na apresentação original para que ele se tornasse um doce ainda mais relevante, de paladar adulto, e ocupasse seu merecido lugar de destaque na culinária brasileira.
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Meu ateliê só teria brigadeiro, nada mais. Seriam 40 receitas exclusivas do doce, desenvolvidas ao longo da minha vida de neta de doceira, e preparadas com os melhores ingredientes, na hora, para manter o frescor e a afetividade – segredos que aprendi cedo com a minha avó. O nome do ateliê seria Maria Brigadeiro, meu apelido de infância, dado com graça por quem me via chegando nas festas da escola carregando uma pomposa bandeja de brigadeiros de minha autoria.
O que para mim fazia todo o sentido do mundo, para os outros soava como um ato subversivo. “Largar tudo para fazer brigadeiro para fora, minha filha? Que ideia é essa agora?”, resmungava meu pai, inconformado.  Um amigo querido, consultor de uma multinacional que estuda a viabilidade de novas empresas, foi categórico: “Um negócio só de brigadeiro não tem a menor chance de dar certo. Se desse, pode ter certeza de que já teriam criado. Você não vai reinventar a roda!”
A medida que fui concretizando o projeto, a desconfiança social só aumentava. Quando contei para a proprietária da casa onde começaria o ateliê quais eram meus planos para o imóvel, ela insinuou sem muito rodeio que brigadeiro não ia pagar o aluguel e pediu tanto documento em garantia que quase desisti do lugar. Quando finalmente me mudei, de mala e panela, corria um boato na vila de que vinha morar ali uma senhora muito gorda que vendia brigadeiro gigante, feito de farinha. Ninguém me dava nem bom dia.
Abrir a conta da empresa também me exigiu paciência e pelo menos uma centena brigadeiros como ‘propina’.  Descrentes de que o negócio vingaria, os gerentes do banco empurravam a conta um para o outro até que, seis  longos meses depois, uma boa alma resolveu nos acolher, e com um simbólico limite de um mil e quinhentos reais. Eu comemorei honrosamente a soma,  mas  confesso que ela não pagava nem a pasta de pistache de um mês. Felizmente, nunca precisei usar.
A negociação com os fornecedores foi outro desafio. As quantidades minímas de ingredientes e embalagens eram grandes, minha demanda diária era de pouco mais de 50 brigadeiros e, como já foi dito, eu não dispunha de muito crédito na praça. O jeito foi colocar dinheiro da minha própria poupança para financiar as primeiras compras e arcar com o prejuízo de tudo aquilo que vencia.
Resumindo? Abrir um negócio inovador não é fácil. Poucos vão acreditar na sua ideia, simplesmente porque ela ainda não existe. Meu conselho, se é que posso dar algum, é acreditar na própria intuição, respirar fundo e seguir adiante, ignorando as muitas pessoas (queridas) e obstáculos que vão te convidar diariamente  a desistir.
Passados seis anos, a Maria Brigadeiro inaugurou uma categoria de negócios que tem inspirado centenas de lojas de brigadeiro Brasil afora, tem um contrato respeitoso de aluguel, é finalmente cumprimentada pela vizinhança, tem um gerente de banco que nos visita semanalmente e um bom crédito com os fornecedores. Pois ainda hoje, quando meu pai vê a nossa cozinha a todo vapor, ele comenta incrédulo: “E não é que está dando certo?”

Nosso time de blogueiros:


Segunda-feira: Pedro Chiamulera
Fundador da ClearSale, empresa que combate fraudes na internet.
Terça-feira: Renato Steinberg
Ao lado do sócio, Flávio Pripas, ele criou o Fashion.me, primeira rede social de moda do mundo.
Quarta-feira: Juliana Motter
Ela criou um dos negócios mais originais do País atualmente, a loja Maria Brigadeiro.
Quinta-feira: Adriane Silveira
Ela começou faz pouco tempo a empreender. Mas a Nanny Dog ganhou espaço por conta do serviço de babá para cães que a empresária oferece aos interessados.
Sexta-feira: Marcelo Nakagawa
Ele atua como coordenador do Centro de Empreendedorismo do Insper. Ele será responsável pela análise dos assuntos mais comentados na semana pela equipe de empresários.
 

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