Nem a crise para o crescimento do Outback no Brasil (e o que aprender com isso)

Daniel Fernandes

25 de março de 2016 | 10h07

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper
Ter sucesso nos momentos de crise é sorte ou competência. No caso da rede de restaurantes Outback deve ser uma competência incrível em ter sorte. Em 2013, a empresa tinha 50 lojas no Brasil. Este número pulou para 64 em 2014 e no ano passado, mesmo com a queda do PIB, mais onze lojas foram abertas, totalizando 75 em 2015. Em 2016, mais duas lojas foram abertas bem no auge da Lava Jato. E quando muitos estão fugindo de Brasília, o Outback inaugura sua quarta unidade na cidade ainda neste primeiro semestre.
A origem do negócio, apesar de curiosa, tem pouca relação com o sucesso no Brasil. Em 1987, três amigos, Tim Gannon, Bob Basham e Chris Sullivan, que trabalhavam em restaurantes especializados em carnes (steakhouses) na Flórida, Estados Unidos, estavam cansados da vida de empregados. “Nós éramos três caras que sempre tinham trabalhado para os outros e que sempre diziam: ‘Deus, se tivéssemos nosso próprio negócio, faríamos diferente.’ – explicou certa vez Tim Gannon.
Até que no ano seguinte, em 1988, criaram coragem, abandonaram seus empregos e fundaram sua própria steakhouse na cidade de Tampa, também na Flórida. O “diferente” que sempre diziam veio por meio de um conceito de um restaurante com inspiração australiana. Na época, o filme Crocodilo Dundee estava fazendo sucesso e os sócios acharam que poderiam se beneficiar deste acontecimento mesmo que nenhum deles conhecesse a Austrália de fato. Apesar do falta de clientes nos primeiros dias, os anúncios surtiram efeito e quinze meses depois já tinham aberto mais cinco lojas.
O Outback continuou crescendo rapidamente nos Estados Unidos até 1996 quando um norte-americano que morava no Brasil entrou em contato questionando se havia interesse em expandir a marca para o País. Outras redes como a T.G.I. Friday´s já estavam no Brasil e o tal americano-brasileiro, Peter Rodenbeck, parecia o sócio ideal. Conhecia o mercado de alimentação como poucos no Brasil, pois já tinha trazido o McDonald´s em 1979 e tinha dinheiro, pois também tinha vendido (muito bem) o próprio McDonald´s para a matriz em 1994. E assim, o Outback chegou ao Brasil um ano depois, em 1997 e desde então, não parou mais de crescer, a ponto da própria matriz também comprar a rede em 2013. Se não bastasse o sucesso que obteve com o McDonald´s e o Outback, Peter Rodenbeck (junto com sua esposa) também trouxe a rede de cafeterias Starbucks em 2006 e a vendeu para a sua matriz em 2010.
Pouco conhecida, a lições de Peter Rodenbeck, podem servir como orientação para outros empreendedores e pessoas que pensam empreender.
-> Parcerias com marcas consagradas: Empreender não é só abrir seu próprio negócio. Também é possível empreender com o negócio dos outros. Ele próprio fez isto com McDonald´s, Outback e Starbucks e isto se tornou um dos pilares do crescimento da rede de stakehouses no Brasil. No Outback, apesar do restaurante ser da matriz, “cada unidades é liderada por um sócio-operador, um profissional com espirito empreendedor que fica responsável em tempo integral pelas operações do restaurante no seu dia a dia” – diz o site da empresa.
-> Empreendedor com nome na porta: Se for a qualquer unidade do Outback, verá o nome do “dono” em letras gigantes na porta de entrada. A empresa não divulga, mas especialistas do mercado estimam que esta pessoa, em geral, investiu algo em torno de R$ 100 mil (uma loja custa em torno de R$ 4,5 milhões), recebe cerca de R$ 15 mil por mês e aproximadamente 8% dos lucros da loja. No final, o empreendedor tem uma bela remuneração. Mas precisa trabalhar muito para ter o contrato renovado. Seu nome na porta é apenas o registo do seu total comprometimento com o negócio.
-> Valorização dos melhores funcionários: Aquela história, muitas vezes hipócrita, de que é preciso valorizar os colaboradores parece ser, estaticamente, verdade na rede. Mais de 60% dos sócios-operadores começaram como garçons, garçonetes ou gerentes no próprio Outback.
-> Alta qualidade padronizada: Com sua experiência de McDonald´s, Rodenbeck conseguiu padronizar os processos sem deixar de atender os exigentes padrões de qualidade do Outback internacional. Muito do que foi desenvolvido no Brasil se tornou padrão lá fora. É por isso que há tantos fãs de produtos aparentemente simples como o pão da entrada ou a cebola de aperitivo.
No final, muitos entenderiam que as lições deste grande empreendedor (norte-americano) brasileiro são óbvias. “Persistência, tenacidade e reservas financeiras que te garantam o tempo para mostrar estas qualidades, é a melhor certeza de sucesso.” – explica. Daí, poucos reconhecem que a sorte que ele teve nos negócios, na verdade, é o resultado de muito, muito trabalho. Por isso, é uma pena que tantos ainda reclamem da sua própria sorte.

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