Não venda! Reflexão para quem lidera negócios baseados em serviços

Daniel Fernandes

15 de agosto de 2014 | 07h17

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Se pensa em empreender investindo pouco e utilizando basicamente seu cérebro como ativo principal, 2015 será o seu ano! A recente mudança no Simples permitirá, a partir do ano que vem, que várias categorias de negócios que são intensivas em conhecimento como consultoria, serviços de engenharia, arquitetura, advocacia, medicina, odontologia, psicologia, representação comercial, design, administração, jornalismo e “outras atividades do setor de serviços, que tenham por finalidade a prestação de serviços decorrentes do exercício de atividade intelectual, de natureza técnica, científica, desportiva, artística ou cultural” tenham o benefício da simplificação da tributação que já era oferecido para outras categorias de negócios.
A medida deve ser celebrada, pois não apenas facilita a gestão contábil-financeira do negócio como também diminui a carga tributária em boa parte dos casos. Os que estão contentes com esta mudança deveriam conhecer e estudar a trajetória de Marvin Bower. Uma de suas decisões está no livro “As 75 melhores decisões administrativas de todos os tempos” (Ed. Manole, 2002) e o negócio que empreendeu contribuiu, direta ou indiretamente, para o desenvolvimento de boa parte das grandes empresas atualmente conhecidas.
Mas mesmo assim, Marvin só é lembrado pelos que passaram pela sua firma. Seguindo o conselho do pai, Marvin Bower se graduou em direito pela Harvard Law School em 1928 e logo em seguida finalizou seu MBA pela mesma universidade em 1930. Seu primeiro emprego foi em um escritório de advocacia e como tinha conhecimento de gestão, passou a cuidar do processo de empresas que estavam em situação falimentar.
Com a experiência, ele começou a perceber que as empresas estavam naquela situação, principalmente, por problemas de estratégia e gestão que poderiam ser equacionados e daí resolvidos. De certa forma, era algo que havia aprendido no curso de direito. Quando tinha 30 anos, ele conheceu um ex-professor da Universidade de Chicago que tinha fundado uma empresa que prestava serviços de contabilidade e engenharia para empresas. Marvin explicou a lógica que tinha desenvolvido para recuperar empresas problemáticas.
James Oscar, o professor, rapidamente se identificou com a abordagem de Marvin, pois a contabilidade e a engenharia seguiam padrões semelhantes de análises para demonstrar os fatos, de decisões baseadas em dados e da padronização de conhecimentos que pudessem ser replicados em outras situações semelhantes.
Marvin se juntou a James e a empresa passou a oferecer serviços de consultoria de gestão, algo inovador na década de 1930. A firma ia bem, expandindo-se para outras cidades dos Estados Unidos quando James faleceu quatro anos depois. Marvin Bower assumiu a liderança do negócio mantendo o sobrenome do professor como razão social da empresa. Isto foi considerado uma das melhores decisões administrativas, pois a McKinsey & Co já era muito conhecida e respeitada em 1937.
Mas a liderança de Marvin tornou a McKinsey ainda maior e mais influente. Adotando práticas de contratação, treinamento, desenvolvimento de produtos, remuneração e sociedade já utilizada nos grandes escritórios de advocacia da época, Marvin começou a atrair os melhores talentos das principais faculdades. Ele ainda incluiu as práticas analíticas dos principais escritórios de contabilidade e os processos padronizados das firmas de engenharia.
O resultado foi uma abordagem coesa e eficaz de desenvolvimento de projetos empresariais que inspirou várias outras empresas de consultoria ao redor do mundo e que atrai o interesse de milhares de empresas que batem na porta da firma em busca de apoio. Mesmo que a McKinsey seja uma grande empresa atualmente, suas práticas como as contadas nos livros O Jeito McKinsey de Ser (Makron, 2000) ou Princípio da Pirâmide (Pritchett, 2011) podem trazer bons insights para empreendedores de negócios intensivos em conhecimento.
Mas o maior legado de gestão de Marvin Bower que deve ser refletido por todos os empreendedores é: Não venda… seja comprado!

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