Na feira livre do bairro, uma aula de empreendedorismo

Na feira livre do bairro, uma aula de empreendedorismo

Uma barraca de feira é como um sistema de franchising de pai para filho, onde há regras, disciplina, atuação conforme a legislação, com equipe treinada e produto apresentado com capricho

Ana Vecchi

15 de janeiro de 2021 | 15h34

Inúmeras ideias viraram excelentes negócios! Outras viraram nada e o pior são as que nasceram e morreram como empresas.

Pesquisas em sites, dicas em portais, EAD, gurus, o famoso 10, 5 ou 15 passos para criar um negócio seriam guias que possibilitam ou facilitam, sobremaneira, como criar negócios de sucesso. Faculdade Administração de Empresas, Marketing ou Economia também nos faz pensar que, delas, saíram ou sairão os melhores empresários. Só que não é bem assim!

O perfil empreendedor e suas habilidades natas não vêm com os cursos e as técnicas desenvolvidas como hard skills. Aprender a empreender é possível, sim, super dá para aprender, mas requer desenvolvimento, treino, disciplina, entender os processos necessários, usar de especialistas para planejar, executar, medir e avaliar indicadores de todas as áreas do negócio, definir em qual delas quem empreende estará à frente, além do papel de dono do negócio.

Lidar com a ansiedade é fundamental e requer cabeça fria para fazer uso das informações corretas e, para isso, há de se saber quais são as certas para o negócio, para o momento de mercado, para o setor, segmento, para o capital disponível e, acima de tudo, para quem vai passar por isso tudo: o/a empreendedor/a.

Alguns dos melhores empresários que conheço no Franchising cursaram Odontologia e têm negócios de alimentação, do setor de casa e construção ou cosméticos e perfumaria e não têm uma única clínica de odontologia ou ortodontia, quanto mais uma rede desse setor. Por outro lado, há franqueadores de clínicas odontológicas que são administradores de empresa ou engenheiros, por exemplo. Resumindo, não há regra, tampouco certo ou errado.

Não posso deixar de falar dos que não fizeram faculdade, alguns frequentaram cursos técnicos e tem aquele para o qual a feira de rua foi a escola de vida e de empreendedorismo!

Aprende a levantar quando é noite ainda, já tem o produto e a estrutura necessária para montar sua empresa (a barraca), todo santo dia, antes de amanhecer, faça chuva ou sol. Está pronto, uniformizado e motivado para atender o primeiro cliente antes que ele chegue e vai aprendendo como vender mais e melhor que o concorrente direto e indireto, a cada hora. A cada hora porque na hora da xepa tem que vender também!

Atende do cliente VIP e que paga mais no início da manhã àquele que precisa pagar menos com o mesmo olhar e cuidado. Cada um desses perfis de cliente encontra o fornecedor que mais lhe agrada, seja pela qualidade de produto, pela simpatia, pela pegada legal de vendas, pela melhor negociação do desconto desejado, pela alegria e sorriso sincero, por um ditado engraçado que nunca tinha se ouvido falar ou, ainda que repetido, já virou o meme da feira desde quando nunca havia se ouvido falar em memes. E a gente fica fiel àquela marca (barraca e feirantes que nela trabalham) por conta desses fatores todos ou os que mais contam para nós na hora da compra!

Ao longo de uma manhã até as 14h, de hora em hora, entra uma galera de clientes com expectativas e perfis distintos e o concorrente está colado com a barraca (loja) ao lado. A degustação faz parte, a forma de atrair a atenção também, cada um à sua moda. Agilidade conta demais! A gente não vê nenhum feirante encostado no que seria o balcão de um quiosque.

Sabe mais o que? Esse empreendedor sabe qual é o máximo de desconto que pode dar, porque sabe qual é a margem para ter lucro, sabe fazer conta de cabeça e não precisa de uma HP e sempre tem troco! Maquininhas, caderneta com os nomes dos que pagam uma vez por mês e troco para quem gosta ou precisa pagar em dinheiro, porque é assim que recebe dos bicos que faz.

E a feira de rua é um grande sistema de franchising de pai para filho, onde há regras, disciplina, atuação conforme a legislação vigente e que dá certo porque a equipe é treinada, o dono da barraca (franqueador ou franqueado) compra, estoca, expõe o produto com capricho, acompanha as tendências e a sazonalidade, faz venda sugestiva, foca em aumentar o P.A. e o ticket médio, sabe o nome de muitos clientes e faz um olho no olho como ninguém! Os que podem agregar valor, levam a sacola até o carro do cliente ou, no mínimo, dentro do carrinho de feira com dois saquinhos para não correr o risco de os produtos caírem no chão.

Tem mesmo uma ideia? Veja tudo que está disponível em termos de artigos, lives e cursos. Em paralelo, frequente feiras livres e vivencie o empreendedorismo que paga contas, incluindo faculdades e carros dos filhos.

Curse a faculdade da vida e se jogue com paixão no negócio que era apenas uma ideia!

* Ana Vecchi é consultora de empresas, CEO na Ana Vecchi Business Consulting, professora universitária e de MBAs, pós-graduada em marketing e com MBA em varejo e franquias. Atua no franchising há 28 anos em inteligência na criação e na expansão de negócios em rede

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