Mulheres maravilha

Daniel Fernandes

28 de novembro de 2016 | 10h57

Está acontecendo um projeto sensacional chamado The Girls on the Road, liderado por 2 brasileiras que estão rodando o mundo com o objetivo de identificar e contar as histórias de mulheres empreendedoras e inspiradoras.
Dede julho deste ano, Taciana Mello e Fernanda Moura já estiveram nos EUA, Canadá, México, Japão, Coreia do Sul e China, entrevistando mulheres empreendedoras que impactaram a realidade à sua volta. No próximo mês seguirão para Cingapura, Malásia e Filipinas. Ao longo da viagem, ganham destaque nos jornais locais.
Esse projeto é muito bacana por muitas razões, e aqui algumas:
– Extrapola totalmente as fronteiras do Brasil. Provoca uma comparação inevitável entre nosso país e o mundo lá fora, nos fazendo refletir sobre nossa realidade e como podemos superar as dificuldades.
– Dá voz às mulheres protagonistas no empreendedorismo, algo raro em qualquer pesquisa, literatura, programa de TV e nos meios acadêmicos.
– E, principalmente, projeta a importância e protagonismo da pesquisa brasileira sobre empreendedorismo no mundo. Ou, como Taciana e Fernanda dizem no site, “o mundo é nosso quintal”. Adorei isso. Boas ideias não têm fronteiras.
O resultado da pesquisa vai ser apresentado em alguns meses num documentário que está sendo produzido. Porém, já podemos acompanhar as andanças e filmagens pelo Facebook.
Aqui, e em primeira mão, uma degustação das informações extremamente valiosas que estão sendo coletadas:
México e Japão
México e Japão se destacaram por questões distintas. No México, por exemplo, o machismo ainda é muito presente e o fato de uma mulher vir a ganhar mais que o seu companheiro causa estranheza e desconforto. Já no Japão, a pressão da sociedade em relação às profissionais/empreendedoras casadas e mães para que se dediquem exclusivamente à família ainda é muito forte. Lá, a impressão é de que as mulheres empreendedoras estão sempre sendo inseridas em situações de muita pressão: ou se focam na família e nos filhos, ou se rebelam e constroem seu próprio negócio. As que decidem por essa última opção sofrem muita resistência.
Coreia do Sul
Na Coreia do Sul, em termos de empreendedorismo feminino, a situação é muito similar ao Japão: empreendedoras ainda estão em número reduzido, relatam vários desafios (em grande parte relacionados a valores sociais) e são ainda exceções à regra.
Embora o governo sul-coreano tenha se empenhado em apoiar o empreendedorismo, ou a “economia criativa”, termo criado para se referir às iniciativas relacionadas ao suporte para o empreendedorismo, a verdade é que, ainda que em menor intensidade que o Japão, uma carreira corporativa (invariavelmente na Samsung, LG, Hyundai) acaba sendo a (melhor) opção para grande parte das mulheres. Por isso, a maioria das empreendedoras entrevistadas saíram de posições em grandes corporações para iniciar seus negócios.
As empreendedoras sul-coreanas relatam histórias como as de, por exemplo, terem que buscar a presença de um co-founder homem para poderem abrir algumas portas, ou mesmo da total falta de interesse da família em apoiá-las. A expectativa (da sociedade) de que devem se casar e cuidar dos filhos ainda está fortemente presente e elas relatam isso de forma muito clara. Não é a toa que, por vezes, se consideram esposas e mães “abaixo da expectativa” por se focarem nos seus negócios.
Numa entrevista, em um momento de reflexão, uma empreendedora colocou a pergunta “como posso ajudar minha filha a ser feliz se eu não me sentir feliz? Construir o meu negócio me faz feliz!”. Assim como essa empreendedora, outras mostram que buscam, aos poucos, mudar a expectativa em relação ao papel da mulher na Coreia.
China
Na China, surpreendentemente, o perfil é outro. Nas entrevistas já realizadas, ficou claro que a mulher chinesa tem perfil e postura muito distintos da população feminina dos países vizinhos visitados. A impressão é de que a política do filho único criou uma situação natural de empoderamento da mulher, na qual as famílias criavam filhas oferecendo as mesmas oportunidades e incentivos dos meninos.
Muitas mulheres afirmaram que nunca sentiram diferenciação e foram criadas dentro do entendimento que tinham os mesmos privilégios dos homens. Nesse contexto, em entrevista ao projeto F♀unders, o fundador do Alibaba, Jack Ma, classificou a empreendedora chinesa como “superwomen”.
No mercado de trabalho, a maior parte das empreendedoras está no setor de e-commerce. Elas indicam quem sentem, sim, dificuldades em buscar investimento ou mesmo em contratar uma equipe e, ainda que em menor intensidade, relatam um pouco de pressão social para casarem e terem filhos. A diferença é que elas parecem não valorizar tanto esses aspectos quanto japonesas e sul-coreanas. A independência financeira vem em primeiro lugar, antes mesmo da vontade de constituir uma família.
O que parece ser igual a todas as mulheres empreendedoras é a resiliência, uma grande força de vontade e iniciativa para estudos e se aprofundar no tema em que elas querem empreender e uma inquietação que as faz questionar os modelos de trabalho que elas conhecem e a realidade em sua volta.
Números atualizados da The Girls on the Road:
– 6 países cobertos de um total de 25 que serão visitados;
– Cidades visitadas : San Francisco Bay Area, Chicago, Boston, NY, Toronto, Cidade do México, Tóquio, Seul, Beijing, Shanghai;
– 33,490 km percorridos até 13/Nov (carro, avião e trem);
– 107 entrevistas realizadas até 13/Nov (projeto teve inicio em 1/Julho);
Acredito que vale muito a pena acompanhar e divulgar o trabalho da Taciana Mello e Fernanda Moura, de extrema importância. O mundo é nosso quintal!
Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastificio Primo – escreve toda semana no Blog do Empreendedor. Quer fazer uma pergunta ou comentário? Receber uma dica? Escreva para ivan.primo@pastificioprimo.com.br

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