Muda Meu Mundo faz conexão para agricultores escoarem produção

Muda Meu Mundo faz conexão para agricultores escoarem produção

Startup do Ceará, que deve expandir para outros Estados em 2021, usa inteligência de dados para tornar produtos orgânicos mais acessíveis à população e evitar exploração de produtores

Maure Pessanha

21 de outubro de 2020 | 11h34

A insegurança alimentar grave, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atinge 10,3 milhões de pessoas. O Brasil possui 4,6% de domicílios (3,1 milhões) habitados por cidadãos que passam fome. Na prática, há uma redução quantitativa severa de alimentos que assola, inclusive, crianças. A fome passa a ser uma experiência cotidiana.

Desse contingente – de acordo com o levantamento, que analisa dados de 2018 e 2019 –, temos 2,6 milhões de homens e mulheres que estão em áreas rurais, o que me parece um contrassenso. Esse é um retrocesso enorme para o País. Para além disso, trata-se de um cenário de desumanidade atroz. A falta de alimentação adequada implica em condições sub-humanas de existência. Uma falha absurda na nossa capacidade de combater as desigualdades sociais.

Diante desse cenário estão a tristeza e o questionamento sobre como alterar essa lógica de escassez para a abundância. O Brasil caminha, a passos largos, para o Mapa da Fome. Em entrevista para o Estadão, o economista Daniel Balaban, chefe do escritório brasileiro do Programa Mundial de Alimentos (maior agência humanitária da Organização das Nações Unidas), alertou que a estimativa é que 5,4 milhões de brasileiros passem para a extrema pobreza, ao final de 2020, em decorrência da pandemia do coronavírus. São 7% da população, segundo estudos do Banco Mundial. O problema é enorme, mas não duvido da nossa capacidade de endereçar esse desafio.

Um exemplo da força empreendedora feminina, voltada para responder aos desafios da alimentação, vem do Ceará. O negócio de impacto socioambiental Muda Meu Mundo nasceu em 2017 para resolver dois grandes problemas: a exploração dos agricultores familiares e o custo excessivo dos produtos orgânicos. A ideia era fazer a ponte entre o produtor e o consumidor, tornando mais acessível o alimento à população local.

Hoje, a plataforma realiza essa conexão do produtor com o varejo por meio da inteligência de dados para uma alimentação sustentável. A startup atua para que possamos ter uma alimentação do futuro sendo construída ao redor das cidades. Fundada e liderada por Priscilla Veras, a empresa – que passou por algumas mudanças até encontrar o modelo de negócio mais adequado – se prepara para expandir para outros Estados, em 2021.

César Farias, agricultor da rede Muda Meu Mundo desde 2018, que triplicou sua renda por conta da organização do plano de produção e da venda para os supermercados. Foto: Cival Jr.

Antes de desenhar essa expansão, a empreendedora teve que lidar com uma fase muito difícil durante a pandemia. A perda de muitos empregos impactou o cenário da agricultura familiar; a paralisação das feiras e dos programas de compra pública de alimentos atingiram diretamente os agricultores, que não tiveram acesso a benefícios de renda extra como os moradores das cidades. Ou seja, as famílias do campo viveram momentos extremos.

Para responder à situação, Muda Meu Mundo atuou para que os produtores continuassem a escoar as produções e aumentassem a renda. De janeiro a agosto, mais de R$ 300 mil foram injetados na rede de agricultores que integram a plataforma do negócio. O pagamento – em valor acima do mercado – foi feito de maneira recorrente e com apoio de um planejamento estruturado de produção. Em suma, os produtores mantiveram o trabalho e aumentaram suas rendas.

Perto do Dia Mundial da Alimentação, comemorado no dia 16 de outubro, quero deixar essa história de esperança vinda do Ceará; um exemplo de que é possível mudar da escassez para a abundância: de alimentos, de inovação, de empatia e de atitudes práticas para transformar realidades hostis.

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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