Minha avó me ensinou: respeite o produto que você vende

Daniel Fernandes

29 de maio de 2013 | 07h54

Juliana fala sobre organização do negócio

Sempre questionei as fórmulas prontas para administrar a minha empresa. Já contei aqui, inclusive, que tive que aprender a domesticar os meus instintos mais reacionários para que a Maria Brigadeiro não entrasse em um colapso quando começou a crescer e o número de funcionários aumentou.
Aprendi que organização e processos são necessários para manter a ordem e a sobrevivência de uma empresa. Mas jamais cedi em relação a um ponto: o respeito ao produto que eu vendo. Essa lição eu não aprendi em livros. Foi a minha avó quem me ensinou. Na casa dela, em Franca, passei a infância vendo o brigadeiro receber tratamento de gente grande, como os doces finos que ela fazia.
No começo, assim que deixei o jornalismo para fundar meu ateliê, conceituei o negócio muito baseado no que o brigadeiro precisava. Na época, por não existir nada semelhante no mercado, eu não tive onde buscar informações. O jeito foi descobrir sozinha.
Foi um jogo de perguntas e respostas comigo mesma. Uma espécie de Roda Viva em que eu respondia pelo doce. “Qual é o melhor brigadeiro do mundo?”, eu me perguntava. “O feito em casa”, respondia mentalmente (e com muita honestidade).
A partir daí pensava um pouco e, para desespero dos amigos e da família, tomava decisões importantes, como alugar uma casa onde eu pudesse fazer duas coisas: morar e trabalhar.
“Ouvir” as necessidades do produto foi determinante. Com base nisso, estruturei o conceito físico da loja e também de marca. Optei, por exemplo, por não ter uma cozinha industrial e sim uma simples, onde a magia do preparo é protegida e a qualidade do brigadeiro, em termos mais gastronômicos, também. As descobertas foram tantas que acabaram virando um livro (O livro do Brigadeiro, Panda Books).
No início você tem que adaptar tudo que está no mercado. Existia muito pouca coisa para brigadeiro quando comecei o negócio. Tivemos que improvisar muito para inovar. Um exemplo disso são as panelinhas onde colocamos brigadeiro de colher. Elas eram desenvolvidas como brinquedo quando as descobri. Lançamos a ideia como lembrancinha de chás de panela e aniversários, foi um sucesso e em um ano e meio, começou a faltar panela no mercado.
Tínhamos que fazer pedidos com meses de antecedência. Hoje virou categoria. Basta colocar “panelinha para brigadeiro” no Google para aparecerem vários fornecedores. O mesmo aconteceu com caixas, forminhas e outros acessórios para brigadeiro. A oferta é cada vez maior.
É com o tempo que você vai detectando as necessidades do produto. Eu descobri, veja você, que precisava criar um departamento só para abrir forminhas. E outro só de “enrolação” de brigadeiros, um terceiro de “confeitagem”. Se tive que criar até neogismos para nomear os setores, pense na dificuldade de achar profissionais para ocupar suas vagas. ‘Precisa-se de enroladeira de brigadeiro”, ia provocar boas gargalhadas na Catho seis anos atrás. O jeito foi treinar pessoas sem experiência, mas com muito amor para dar, ao brigadeiro. E assim foi. E tem sido. Observando tudo com aquela curiosidade de quem quer conhecer o outro.

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