Meu tio tem certeza: brasileiro não gosta de trabalhar

Daniel Fernandes

24 de setembro de 2014 | 06h00

Leo Spigariol escreve toda quarta-feira
Tenho um tio que sempre diz: brasileiro não gosta de trabalhar. Ele olha para a realidade ao seu redor, vestido de  seus quase noventa anos, e sai de casa para trabalhar, aquele trabalho mesmo, de colocar a mão na massa. E ele cristalizou a imagem de que o brasileiro não gosta de trabalhar (obviamente com uma dose de preconceito). O estrangeiro, não. Esse, sim, trabalha.
Dei uma passadinha, durante essas minhas escapadas por São Paulo, no Museu Afro-brasileiro. Recomendo. O que me chamou muita a atenção foi o seguinte aspecto histórico apresentado em um texto de um painel. Na Europa, antes do descobrir a América, o trabalho manual possuía sua hierarquia: aprendiz, assistente e mestre. O sujeito passava por todos esses graus até se tornar um respeitado ferreiro, sapateiro ou marceneiro. São os ofícios e o sujeito poderia vir a ser um dia um mestre de ofício.
Então os portugueses chegam ao Brasil, escravizam o índio, depois o trocam pelo africano. Chegando aqui, por estas bandas nossas, trabalhar se torna, então, coisa de escravo, coisa de gente inferior. Ué? Mas esses ofícios não eram coisa de mestre na Europa? Ah, mas aqui, ofício virou coisa de escravo. Colocar a mão na massa, para o povo da Península Ibérica, era coisa de escravo. Assim, no nosso País, quem era destinado a fazer coisas manuais era o escravo africano.
E assim vivemos por séculos. E podemos dizer “era uma vez um lugar onde ninguém gostava de trabalhar porque era coisa de gente inferior”. E chegamos ao século XX e XXI. E reflito: quem gosta, hoje, de varrer, lavar, passar, consertar e afins? Quase todos fogem desses afazeres. Curioso, pois na Alemanha o sujeito estuda para ser zelador, recebendo uma base sólida de elétrica, hidráulica etc. Curioso, o nosso zelador, via de regra, aprendeu de “orelhada”. Em meu escritório de design em São Paulo, logo no início, quem fez a parte elétrica da nossa sede foi um padeiro que fazia bicos de eletricista.
Mas, voltando ao trabalho, eu pergunto: depois de séculos de escravidão, os ex-escravos foram lançados ao destino, construíram favelas etc. e tal. O tempo passou e proliferou a ideia de que qualquer um pode ser um magnata, pois é assim numa economia de mercado, né? O pobre pode ficar rico de uma hora para outra. Mas, como? Não é trabalhando, porque o rico não faz isso no nosso País. Bem, pelo menos assim enxerga o senso comum.
Dê uma saidinha na rua e pergunte às pessoas: o rico põe a mão na massa? Voltando à minha vontade  de perguntar, agora pergunto mesmo: o ex-escravo, vendo, historicamente, que trabalho é coisa de “gente inferior” (óbvio, porque só gente inferior pega realmente no pesado, segundo o que vivenciamos nos últimos séculos), esse sujeito vai querer voltar a ser escravo? E o sujeito ariano abastado? Ele vai pôr a mão na massa? Aposto que, tanto para um quanto para outro, pôr a mão na massa é a pior das humilhações, é coisa de afro-descendente, gente inferior. Poxa, mas na Dinamarca, na Alemanha, nos EUA, todo mundo pinta sua própria casa, conserta sua rede elétrica etc. Não é?
Bem, meu tio se daria muito bem nesses países. Assim como o Dutra, um senhor que prestou excelentes serviços de construção em casa. Por ventura, ele é afro-descendente e nordestino, contrariando a lógica de que brasileiro não gosta de trabalhar. E que lógica resiste ao nosso querido País, não? Porém, por estas bandas de cá, meu tio e o senhor Dutra são velhos chatos, deslocados espaço-temporalmente e ultrapassados, que realmente gostam de trabalhar.

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