Mesmo que não saiba a resposta, seja autêntico ao que você é!

Daniel Fernandes

24 de outubro de 2014 | 06h23

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Eu não me envergonho de responder ”não sei” para os meus alunos. Mesmo porque nunca tive alunos. No Latim, aluno está associado à ausência de luz ou àquele que não tem luz. E no sentido mais iluminado do termo, empreender é encontrar sua própria luz e daí seu caminho.
Mas naquele dia ela estava, literalmente, aluna. Durante o intervalo da aula, veio cabisbaixa e triste, pedindo minha orientação.
Meu marido tem um restaurante japonês” – começou a explicar. “E de alguns meses para cá passamos a receber muitas visitas da vigilância sanitária” – continuou. “Na primeira vez, parece que algum cliente denunciou que o banheiro estava com problemas. O fiscal veio e não encontrou nenhuma não conformidade. Depois, alguém reclamou na vigilância que o peixe tinha dado algum problema de digestão. Outro fiscal apareceu e novamente nada encontrou. Até que em outra visita da vigilância, o fiscal entendeu que as ostras não estavam bem armazenadas. O restaurante foi multado e fechado por alguns dias. E restaurante japonês autuado e fechado pela vigilância sanitária é notícia que se espalha rapidamente pelo bairro” – relatou. E o que eu não entendia, professor, é que meu marido tomava todos os cuidados possíveis pois ele sabia que qualquer pequeno deslize poderia custar a própria sobrevivência do negócio” – complementou. “O que fiquei pasma foi que algum dia depois de reabrirmos apareceu um jovem no restaurante todo sarcástico dizendo que nosso restaurante japonês não ia durar muito pois o pai dele iria abrir outro nas redondezas. E fiquei sem reação quando disse que eram eles que estavam fazendo as denuncias contra nosso restaurante…” – finalizou minha aluna usando o resto de luz que ainda tinha naquele momento.
E eu já vinha me preparando para uma pergunta que sabia que viria logo em seguida…
O que podemos fazer já que nem conseguiríamos provar o que aquele sujeito tinha falado e feito aquilo? “ – questionou.
Por um momento pensei em sugerir que devolvessem as agressões com as mesmas armas. Mas raciocinei que só uma pessoa malvada consegue ser ainda mais má. Só alguém pequeno consegue ser ainda menor. E quando você responde maldade com mais maldade, calunia com mais calunia, continuará recebendo de volta, inexoravelmente, mais do que mandou já que o ódio é o prazer mais duradouro dos pequenos. George Byron, ou simplesmente, Lord Byron, poeta inglês, costumava dizer que “os homens amam com pressa, mas odeiam com calma”.
Diante daquela pergunta eu só consegui responder: “Não sei…”. E foi a primeira vez que me envergonhei por saber que não saber a resposta daria a vitória a quem não merecia ganhar.
Mas agora eu sei que posso escolher dar o meu apoio autêntico a quem eu sei que merece.
Afinal, um cliente japonês frequentando um restaurante nipônico deve dar algum crivo de credibilidade para o estabelecimento.

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