Made in Paraguay

Daniel Fernandes

17 de setembro de 2015 | 06h52

Nesta noite perdi o sono. Acordei por volta das duas da madrugada e não preguei mais os olhos. Angústia. Acho que, no cenário atual, não sou o único privilegiado a ter isso. Tenho trinta e sete anos e o confisco da poupança, em 1990, até então tinha sido o período da economia de nosso País mais traumático que vivi.
Aos doze anos, minha única preocupação era tirar boas notas – não que eu fosse bom aluno; adorava tocar guitarra e dormir. Não tinha ideia do estrago que ocorrera naquela época na economia. Mas minha angústia e insônia recentes não foram por pensar no passado, mas sim acerca do que vem acontecendo nos dias de hoje.
Corrijam-me se estiver errado, mas talvez vivemos o período mais crítico e pessimista em nossa história democrática, com uma deterioração da confiança moral e ética das relações público-privadas. E, querendo ou não, esse estado de coisas reverbera em toda a nossa sociedade.
O sentimento de que há possibilidades de melhorias é tão reprimido que torna minha angústia sincera e verdadeira. Nadar rio acima está ficando cada vez mais difícil. No mês de agosto, posso contar nos dedos quais foram os fornecedores que ainda não repassaram aumentos para composição de nossos produtos. E, por outro lado, o varejo nos pressiona a baixar preços, pois a demanda de consumo tem reduzido dia a dia. O estado não produz nada. Aliás, a sequência é – ou deveria ser: o que nós empreendedores produzimos nutre essa cadeia, que nutre o estado, que tem a responsabilidade em aplicar esses nossos recursos de forma que essa cadeia consiga se retroalimentar da melhor forma possível.
Isso, claro, funciona lá na Suécia. Por aqui, dentro de todas essas turbulências, estamos conseguindo encontrar formas de driblar essas dificuldades para seguir em frente com nosso projeto. O paradoxo: não temos do que reclamar. Nossa forma de enxergar os fatos: temos de, até o último suspiro, ser otimistas. Minha angústia é presenciar a deterioração das relações e participar desse downgrade do Brasil.
Tudo bem que historicamente não temos tradição de ser  bons pagadores. Na época do Sarney, chegamos a decretar moratória da nossa dívida externa com o até então ministro Dilson Funaro. Pela primeira vez, sinto vontade de encarar um projeto de nova fábrica em outro país. Por incrível que pareça, até o Paraguai é mais favorável para quem quer investir e gerar emprego.
Leo Spigariol é um dos fundadores da De Cabrón

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