Lucile Salter: a mulher que ajudou a criar o Vale do Silício e uma empresa que fatura US$ 112 bilhões

Daniel Fernandes

22 de agosto de 2014 | 08h10

Marcelo Nakagawa é professor do Insper
Dificilmente o Vale do Silício teria se constituído se não fosse por causa de Lucile Salter. Muitos consideram que o Vale, como carinhosamente é chamado a região ao sul da cidade de San Francisco até as redondezas de San Jose na Califórnia, nasceu a partir  garagem da casa de David Packard. Ele e seu amigo de faculdade, Bill Hewlett, criaram a Hewlett-Packard, empresa que atualmente fatura US$ 112 bilhões e tem mais de 317 mil colaboradores ao redor do mundo.
Packard tinha pedido demissão da General Electric em 1939 e se juntou ao amigo Hewlett, que havia terminado seu mestrado no MIT, para criar uma nova empresa na cidade em que moravam, Palo Alto, incentivado por um antigo professor de ambos, Frederick Terman, da Universidade de Stanford.
Terman acreditava que seus talentosos alunos poderiam criar um negócio na área de equipamentos e investiu US$ 538 dólares do seu próprio bolso para que fundassem a empresa. Isto foi suficiente para que a dupla comprasse os primeiros equipamentos e alguns componentes.
Jovens e com poucos recursos, passaram a trabalhar na garagem da pequena casa em que Packard morava com sua esposa. Eles não sabiam exatamente o que fazer no início. “Fazíamos qualquer coisa para ganhar dinheiro. Fizemos sensores para pistas de boliche, relógios para telescópios, descargas automáticas de banheiros e máquinas de choque para pessoas perderem peso.” Mas eles não conseguiam vender suas invenções.
Aí entra Lucile. Foi ela, seu salário, sua paciência e seu apoio que manteve a HP funcionando nos primeiros anos. “Trabalhando de segunda a sexta e meio período no sábado (na área administrativa na Universidade de Stanford), ela, essencialmente nos manteve nos primeiros anos.” – escreveu anos depois, David Packard, seu marido, no seu livro The HP Way: Como Bill Hewlett e eu construímos nossa empresa (Ed. Campus, 1995). E não era só o dinheiro para manter a casa. Lucile ainda cozinha para os dois sócios e emprestava seu forno para que a dupla secasse os equipamentos que pintavam. “Meus rosbifes nunca mais ficaram os mesmos depois que Bill e Dave passaram a usá-lo como forno de pintura” – lembrou, certa vez, com bom humor.
Vários empreendedores contaram com o segundo motor para manter seus sonhos de negócios operando enquanto que o motor principal não funcionava como o esperado no início.
Marcelo Malczewski e Wolney Betiol começaram a empresa vendendo impressoras para máquinas telex em um momento em que as máquinas de fax dominavam o mercado. Até descobrirem que a solução que haviam inventado poderia ser utilizada como impressoras em terminais bancários, sobreviviam com seus salários de professores.
Fundada em 1969, a Natura praticamente não vendia nada até 1974. Com despesas para pagar e filhos para criar, as aulas de estética que Luiz Seabra, que co-fundou a empresa, dava no Senac não só ajudavam nas contas mas também na divulgação dos seus produtos.
Ninguém acreditava que o negócio de Juliana Motter teria futuro. Isto incluía seu pai, um amigo consultor que “entendia tudo de negócios” e até ela própria em alguns momentos. Por isso, ela só abandonou o salário de jornalista em uma revista feminina quando o motor principal da Maria Brigadeiro, o primeiro negócio especializado em brigadeiros do Brasil, já funcionava a pleno vapor.
Por mais que o sonho de empreender alimenta o propósito de existência de muitos, é preciso manter o estômago cheio e as contas pagas todos os dias.
 

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