Imagine um colega de trabalho cuspindo no chão!!!!

Daniel Fernandes

29 de julho de 2013 | 07h11

Pedro fala sobre cultura empresarial

“O conhecido soneto diz que o beijo é a véspera do escarro, mas na China é o contrário: é possível ver uma senhorita salivando na rua para depois roçar seu lábio em outro qualquer.”*
É a introdução de uma reportagem sobre escarro antes dos Jogos Olímpicos de Pequim. Escarrar na rua é um ato muito normal dentro daquela cultura. Agora pare e imagine você na rua e de repente uma pessoa solta um maior escarro verde:
– Ai que nojo!  Você diria. Façamos uma analogia e imagine um amigo de trabalho agindo de maneira muito similar ao cuspir no chão, como por exemplo, no trato com os seus colegas ou pior ainda com o próprio cliente.
Este exemplo choca, mas por meio dele fica mais fácil de entender a importância do envolvimento contínuo de todos para resguardar a cultura da empresa e suas peculiaridades.
Este cuidado é ainda mais importante para as pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de vivenciar e entender a cultura, processo este que pode levar em torno de 10 meses ou mais. Quanto maior a diferença nas culturas maior será a dependência da abertura da pessoa para a autoformação, e talvez leve ainda mais tempo.
Se uma pessoa entra na empresa e sempre viveu em um ambiente onde o catarro era normal, isto é, onde as pessoas são tratadas única e exclusivamente pelo seu papel profissional, cheia de preconceitos, sem liberdade, sem voz ativa, sem acolhimento, enfim, como objetos e não como sujeitos, ela provavelmente sofrerá para se ajustar, mas com certeza será melhor.
É uma grande mudança para a pessoa que entra e um grande desafio e oportunidade para as pessoas de dentro exercitarem o que chamamos de aprendizado pessoal.  Aprendizado pessoal para quebrar a rigidez comum do nosso pensamento e entender um pouco mais desta nova subjetividade que está entrando na empresa.
Entender que o choque cultural pode ser muito grande e inconscientemente desestabilizar a pessoa, deixando-a sem chão e ocasionando ações impróprias. É da responsabilidade de cada um acolher, educar, e não se sentir constrangido em falar em particular sobre algo errado.
Quebrar o “nojo” que existe em nós e falar que aquele catarro pode trazer consequências graves para a saúde das pessoas. O calar-se é tolerar algo, e este, molda a cultura tanto quanto o mau exemplo.  Este ato de conversar com a pessoa ao invés de fazer cara feia é também uma grande oportunidade para gerar confiança e empatia. Contudo, é preciso fazê-lo rápido para não perder o momento e também de forma humilde, simples e sincera.  Você nunca experimentou um feedback de estranhos? O efeito educador é bem maior.
Lembro-me de uma viagem com a família e, por medo de perder a conexão, já fui pedindo e entrando na frente dos outros. Quando um passageiro me perguntou que voo era, notei que eu não tinha ajustado o fuso horário.
Ai que vergonha! Veja a cara das pessoas que furam a fila e são reprimidas. Falo aqui do constrangimento em público, e por isso, o feedback comportamental tem que ser sempre, sempre em particular. Assim, consistentemente vamos mudando a percepção da pessoa, e principalmente aprendemos um pouco mais de nós mesmos prezando por aquilo que acreditamos.
Não podemos nos envolver na questão profissional, quando não estamos diretamente envolvidos, mas podemos sim, ajudar uns aos outros nos deslizes na cultura. Várias vezes em um ato emotivo, fui lembrado pelo meu sócio Bernardo, em ter paciência e pensar melhor na ação. Lembro-me dos primórdios, quando eu jogava o celular na parede. É um ato de muita coragem essa ação imediata depois da reflexão interna. Como diz o ditado: Contratamos pelo profissional e demitimos pelo pessoal.
O pessoal é de responsabilidade de todos. A cultura é a união das pessoas, de como elas agem no elevador, de como elas cumprimentam e respeitam os outros de hierarquias diferentes, de como elas não olham para o lado para uma pessoa diferente ou pouco conhecida, enfim, o quanto elas são sensíveis e respeitosas com os outros.
Não precisamos esperar algo anormal acontecer para agirmos. Podemos sair do nosso conforto e dar uma volta pela empresa e ir de encontro aos mais desconhecidos. Adoro ver o Guilherme, gerente TI da ClearSale, passeando pela empresa e conversando com as pessoas.  Ele descontrai nos momentos “buchas”, além de ajudar na difusão da cultura.
Finalizando, eu adoro metáforas (hoje foi forte, humana e olímpica), pois elas atingem a nossa humanidade e nos levam a refletir, e neste caso de hoje, o quanto podemos crescer como pessoa ficando atento à subjetividade das pessoas em seus relacionamentos. É na atenção às interações humanas que damos um gosto diferente para a vida. Experimente! Faça a diferença para você e para a cultura da empresa.
* “Cuspe à distância ganha multa, não medalha” – Rodrigo Bertolotto

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