Como não inventei o Spotify nove anos antes?

Daniel Fernandes

27 de setembro de 2016 | 12h08

O ano é 2000. Eu tinha acabado de entrar na faculdade e o combinado com meus pais era: quem entrasse para a faculdade ganharia um carro. E assim eles compraram para mim um Gol prateado. Eu adorava aquele carro, com suas luzes de painel azuis e com uma disqueteira para 6 CDs na mala! Para a geração pós-CD: disqueteira era um aparelho que se colocava em carros e que permitia carregar vários CDs ao mesmo tempo, e escolher qual iria tocar pelo painel.
Apesar da disqueteira, em poucos meses eu já estava enlouquecendo por escutar as mesmas músicas e ficava sonhando com outro aparelho: 1) em que eu pudesse escutar qualquer música que quisesse; 2) que me indicasse novas músicas baseadas nas que eu gostava; 3) funcionasse com comando de voz. Não sei se vocês perceberam, mas basicamente inventei o Spotify – nove anos antes!

Não penso em momento nenhum que alguém do Spotify roubou minha ideia. Aliás, nem penso que era uma ideia tão original assim. Provavelmente, milhares de pessoas tiveram a mesma ideia, e com certeza uma parte desse grupo pensou em tudo muito antes da minha decepção com a disqueteira. Algo parecido com isso acontece comigo até com certa frequência. Sempre que me apresento em eventos e explico que, no Colab, é possível postar ocorrências que precisam ser resolvidas, como um buraco em uma via, escuto: “Eu já tive essa ideia! Criar um app para que o Governo resolva meus problemas”.
Não só essas pessoas tiveram a ideia de um Colab, mas provavelmente milhares de outras. E não só do Colab ou do Spotify, mas também do Instagram ou do WhatsApp. Acredito que sempre haverá alguém que já teve uma ideia igual a qualquer ideia que você já teve. Por isso sempre repito que ideias são commodities. Elas estão por aí, flutuando, e qualquer pessoa pode ir até lá e pegar uma. O que faz empresas terem sucesso não são as ideias dos fundadores, mas executar essas ideias e operacionalizá-las.
No caso do Colab, só para começar, tivemos que fazer um app para iPhone, um app para Android, um site todo funcional, e criar a infraestrutura para que tudo isso funcionasse. E isso apenas para começar a operar! Depois disso, tivemos que ir atrás dos governos, criar um novo site para que eles pudessem interagir com os cidadãos, criar um time de atendimento para apoiar o Governo, e tudo isso enquanto ainda estamos evoluindo os produtos dia a dia! Agora para e pensa no que o Spotify passou para chegar aonde chegou, ou o Instagram, ou o WhatsApp. As ideias foram importantes para iniciar o trabalho, mas a execução e a operação foram o que fizeram cada uma dessas empresas chegarem aonde chegaram.
Ah! E só finalizando, sobre o Spotify: sou bem feliz porque eles tiveram a mesma ideia que tive e porque foram além, criando a empresa e me permitindo ter acesso a um número infinito de música! Sou um feliz assinante do serviço 😉
Josemando Sobral – sócio fundador do Colab, apaixonado por tecnologia e nas horas vagas, baixa apps. Quer falar comigo? Me procure no Twitter @josemando.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.