IAHUU! Empreendedores de um Brasil que só existe dentro de nós

Daniel Fernandes

14 de novembro de 2014 | 06h24

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Há dez anos, todos nós poderíamos ter comprado a empresa fundada por Celeste Milani em 1955 no bairro paulistano da Mooca. A empresa toda valia menos do que uma única garrafa do produto que vendia. Com dívidas de mais de 25 milhões de reais, foi vendida por um real.
A groselha vitaminada Milani, iahuu, era uma delícia, iahuu, no leite, iahuu, no refresco e no lanche, iahuu. Prá tomar a toda hora, na sua casa, na festinha, na merenda, iahuu. Tudo ficava uma delícia, guarde o nome, não se engane, groselha vitaminada Milani, iahuu! Também no sabor morango e framboesa.
Olhando o rápido crescimento urbano e da classe C brasileira na década de 1950, o italiano Celeste Milani ficava inventando fórmulas de bebidas que pudessem ser consumidas em larga escala por esta nova faixa da população. Chegou a um xarope de groselha que se tornou um rápido sucesso mesmo que uma parte dos seus consumidores não soubesse o que era exatamente esta fruta. A ideia de negócio era brilhante pois tinha um sabor exótico, que atraia a atenção. Era proporcionalmente barata, já era concentrada, bastando acionar água. E por isso poderia ser consumida por famílias acima de dez pessoas, comum na época. Mas o que foi sucesso com os pais e filhos, se tornou um fracasso com os netos, já doutrinados com os refrigerantes, a ponto de groselha ser atualmente sinônimo de chatice.
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Mas as mudanças de hábito de consumo dos mais jovens também contribuíram para a queda do consumo do café comercializado pela família Alves, Silva e Pierrot, levando a empresa a ser comprada norte-americana Sara Lee em 1998.
Se as crianças na década de 1960 e 1970 tomavam groselha à tarde, na hora do café da manhã, era café Seleto, que a mamãe preparava, com todo carinho. Já que o café Seleto, tinha sabor delicioso. Era um cafezinho gostoso. Era o café Seleto. Café Seleto.
Mas se por um lado, as mães davam café para seus filhos pequenos, por outro, eles aprendiam a se virar bem mais cedo que as crianças atualmente. Quando chegava a hora de dormir, nem esperam mamãe mandar. Elas só desejam um bom sono para você e um alegre despertar. A aconchegante maciez da pura lã para sua família dos cobertores Parahyba cuidava do resto.
Criada em 1925, Olívio Gomes acreditava que havia um enorme mercado para produtos têxteis no Brasil e estava certo. A Companhia Fiação e Tecelagem Parahyba, baseada em São José dos Campos, estava estrategicamente posicionada para atender as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Vendeu muito produtos, mas nada ganhava em vendas do que seus cobertores, sinônimo de bons sonhos para todos os brasileiros. Mas o pesadelo se instalou na empresa na década de 1990. Não aguentou a concorrência dos estrangeiros e a empresa encerrou suas atividades em 1993, sendo assumida por seus funcionários.
Empresas nascem, crescem e boa parte desparece na história de um país que não existe mais. Mas continuam existindo nas pessoas que viveram essas histórias. E dá para relembrá-las com um Café Seleto… iahuu!

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