Gente dá trabalho, e lidar com franqueados requer clareza

Gente dá trabalho, e lidar com franqueados requer clareza

Em setor tão formatado e cheio de regras como o franchising, é fundamental relacionamento e olho no olho para engajar as pessoas e permitir sugestões

Ana Vecchi

14 de novembro de 2019 | 15h10

É impressionante como o tema gestão de pessoas ou de gente, como está sendo mais usado ultimamente, chama a atenção, atrai participantes a mesas redondas ou a palestras e dá nó no cérebro para que encontrem soluções aos problemas gerados pelas próprias pessoas.

É líder se queixando da equipe, subordinado reclamando do chefe, colega criticando os folgados ou os que querem aparecer, sem falar no quanto irritam os que fazem tudo rápido, com excelência e dão conta do que é deles e dos outros! Franqueador é o empresário mais feliz do mundo quando vende as 5 primeiras franquias e empreendedores sonham em comprar uma ou várias franquias e terem um/a franqueador/a orientando sobre como tocar aquele negócio que escolheram investir.

Seis meses depois, franqueador e franqueados já começam a perceber alguns defeitos uns nos outros. Um ano se passou e o franqueador está pensando porque resolveu se meter neste negócio de franchising, onde é que ele estava com a cabeça de querer um monte de gente dependente dele e que mal sabe o que fazer com a franquia, com a equipe e quiçá com a própria vida?

Franqueados passam a definir franqueadores flexíveis no modelo de gestão como uns molengas que passam a mão na cabeça de todo mundo porque não sabem o que fazer com a rede. E os franqueadores mais rígidos e que fazem a gestão de forma estruturada, controlada e com indicadores são julgados como uns neuróticos ditadores que só fazem mandar e multar a rede em tudo o que os franqueados façam fora do que prevê o contrato de franquia e os manuais.

Lendo assim pode parecer exagero, engraçado ou trágico demais. Conviver há décadas neste mercado me faz ver e ouvir coisas assim com muita frequência, seguida da pergunta que vale milhão: que marca que não tem este problema e em que todos estão satisfeitos?

Lidar com o time é a base do negócio. Foto: Pixabay

Lidar com franqueados requer proximidade e clareza nos papéis e objetivos. Franqueados compram um sistema de gestão de um negócio formatado, padronizado e com diminuição de risco devido ao domínio que o franqueador e sua equipe têm. Mas isso não pode ser feito apenas por carta, e-mail, whatsapp, ligação, vídeo conferência ou EAD (ensino à distância). É fundamental contato, olho no olho, a hora do cafezinho, do desabafo, dos ensinamentos, para chegar na hora do puxão de orelha e até do tapinha nas costas.

Franchising é relacionamento! Lidar com a rede, com o time, fornecedores e clientes é a base de tudo. Em tempos de crise ou quando algo dá errado, o relacionamento é que sustenta e resolve, se não tudo, quase tudo. O longo prazo é a visão de gestão de gente, ainda que o varejo não enxergue assim.

O Alessandro Pereira, franqueador do Mania de Churrasco tem uma proposta ótima que chama de cooltura – a cultura cool – não é o máximo isso? Mesmo que a gente não saiba como é nem como implantar, é tudo de bom! Pode ser não engessar as pessoas às regras, permitir sugestões, encontrar formas de gerenciar uma rede permitindo adaptações regionais de produtos e serviços conforme comportamento dos clientes locais, assim como as questões trabalhistas dentro do que está homologado pelo sindicato.

Engajar as pessoas dentro de uma cooltura me parece infinitamente mais fácil e coerente do que em empresas com líderes autoritários, agressivos, que falam o que bem pensam e dane-se o mundo. Quem se dana são eles, mais cedo ou mais tarde.

Desenvolver e apostar naqueles que podem crescer, na empresa e com ela, é agregar valor e permitir o desenvolvimento de tudo e de todos. E dá uma sensação maravilhosa de dever cumprido, de realização, de que juntos somos um e mais uma série de frases motivacionais! Plano de carreira em rede franqueada e na franqueadora, onde um funcionário sabe que, um dia, poderá comprar uma franquia daquela marca e se tornar empresário, com o domínio necessário para operar bem um negócio faz muita diferença na vida das pessoas.

Há expectativa de um futuro diferente, concorda? E há aqueles que não querem isso, querem continuar sendo o que nasceram para fazer. E cabe aos líderes entender e respeitar. Não classificar como acomodados, mas como realizados no topo de onde poderiam chegar.

Diante disso tudo e mais um tanto, cabe avaliar: Quanto eu quero mexer com pessoas e suas histórias, culturas, expectativas? Quanto quero treinar, corrigir, dar feedback, elogiar, propor melhoria, investir ou demitir? Seu propósito refletirá na sua equipe, na sua rede de franquias, na sua empresa e na sua marca. Sua saúde refletirá também. Você vai escolher entre ter dor de estômago, de cabeça, mais rugas na testa, dormir agitado ou o oposto disso tudo.

Pessoas dão trabalho, mas acordar sorrindo e com satisfação em desenvolver relacionamentos perenes, estáveis e harmoniosos também dão capa de revista. Não seja você o problema. E elas darão soluções e resultados!

Ana Vecchi é consultora de empresas, CEO na Ana Vecchi Business Consulting, professora universitária e de MBAs, pós-graduada em marketing e com MBA em varejo e franquias. Atua no franchising há 28 anos em inteligência na criação e na expansão de negócios em rede.

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