Fundador da Yakult conseguiu integrar lucro e impacto social como poucos

Daniel Fernandes

02 de outubro de 2015 | 07h29

yakult benefícios diarréia

Cresce o número de empresas e empreendedores com “propósito”. Pessoas assim querem ajudar a mudar o mundo por meio dos seus negócios de impacto social. Mas a boa vontade quase sempre emperra no desenvolvimento de um modelo de negócio que seja escalável já que os empreendedores “do bem”, em geral, têm dificuldades em encontrar modelos concretos com que possam se inspirar.
Por fazer tão parte da vida das pessoas, a Yakult quase nunca é lembrada como negócio de impacto social. E pelo fato de boa parte da sua trajetória e do seu empreendedor estar em japonês, o resto do mundo só se lembra da pequena embalagem e do sabor inconfundível do seu leite fermentado.
Mas se você já empreende ou pretende criar um negócio que integre lucro e impacto social, a sabedoria empreendedora de Minoru Shirota, fundador da Yakult, pode trazer inspirações para que crie negócios grandes não só em tamanho, mas grandiosos em seu impacto.

Estude, pesquise e empreenda por uma causa: O Japão da década de 1910 tinha o padrão de vida de muitos países africanos atualmente. As condições sanitárias eram péssimas, a comida pouca e as pessoas, principalmente, as crianças morriam em função de graves problemas intestinais. Mesmo de origem rica, Minoru Shirota decidiu cursar medicina em 1921 com o único objetivo de reduzir a mortalidade infantil que tinha visto em sua adolescência. Intrigado com o trabalho do cientista russo, Ilya Metchnikov, que havia ganho o prêmio Nobel em 1908, começou a estudar como as bactérias poderiam ter efeitos positivos na saúde humana. Em 1930, conseguiu desenvolver um tipo de lactobacilo que impedia a proliferação de bactérias intestinais nocivas. Com isso, conseguiu uma solução para reduzir diversas doenças intestinais.
Pense global: A partir da sua descoberta, decidiu montar um negócio em 1935. Mas antes de criar a empresa em si, ele definiu os pilares que o negócio deveria se sustentar: 1) Medicina preventiva (promover a saúde é muito melhor do que ficar doente e ter se tratar depois), 2) A longevidade através da saúde intestinal (intestino mais “forte” permite desfrutar uma vida mais longa e saudável) e 3) Boa saúde acessível a todos (o maior número de pessoas deveria ter acesso com a melhor relação custo-benefício). Este último critério, em especial, o levou a pensar em um negócio que poderia se expandir além do Japão, daí a preocupação em escolher um nome que soasse mais globalizado: Yakult deriva do termo iogurte em esperanto.
Crie um design icônico: Muitas pessoas, com os olhos fechados, reconhecem a embalagem do Yakult atualmente. E era esta justamente sua intenção ao criar diferentes embalagens até a versão atual lançada em 1940. A embalagem também deveria ter outras funções: caber nas mãos de uma criança e que fosse divertido o seu consumo.
Ofereça conveniência: Para permitir que mais pessoas tivessem acesso ao seu produto, em 1960, a Yakult desenvolve um sistema de entregas domiciliares feito por senhoras. Isto não só aumentou a popularidade do produto como deu trabalho para milhares de mulheres japonesas que nunca tinham tido a oportunidade de um emprego. Hoje, só no Brasil, a empresa conta com mais de cinco mil distribuidoras residenciais que respondem por quase 60% das vendas da companhia.
Crie relacionamentos reais: As Yakult ladies (ou Yakult Obaasan em japonês ou tias do Yakult em português) também criaram fortes laços de relacionamento da empresa com seus clientes. A marca era sempre lembrada e as qualidades do produto sempre asseguradas, pois os clientes interagiam (elogiavam, reclamavam, davam sugestões) sempre com “alguém da empresa”, que estava ali, na sua frente.
Desenvolva hábitos de vida: Com o tempo, tomar Yakult se tornou um hábito nas crianças e seus pais, nas crianças que cresceram e se tornaram pais e o produto se tornou sinônimo de leite fermentado que “faz bem a saúde”.
Mesmo agora em que as condições sanitárias melhoraram muito, a Yakult, vendida em 33 países, continua a se posicionar como um produto que contribui para uma vida melhor e se tornou tão presente em nossas vidas que nem sequer sabemos ou lembramos que foi criada por um empreendedor, que ainda muito jovem, descobriu seu propósito de vida e conseguiu criar um negócio bem sucedido a partir disso.
Marcelo Nakagawa é professor do Insper e diretor de empreendedorismo da FIAP