Fundador da FedEx quase foi reprovado em empreendedorismo

Daniel Fernandes

29 de maio de 2014 | 17h18

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
A educação empreendedora ainda é razoavelmente recente no Brasil. Mas, todas as principais faculdades e universidades já têm a disciplina nos seus cursos. É importante na medida em que capacitam seus alunos a não serem apenas empregados, mas também a utilizarem o conhecimento adquirido nas aulas em negócios próprios ou dentro das organizações que valorizam cada vez mais este comportamento.
Mas nos Estados Unidos, a educação empreendedora já é bem mais antiga e se alinha à própria criação do país. Enquanto outros países foram fundados por pessoas que queriam apenas explorar o local e retornar aos seus países de origem, os EUA foram fundados por pessoas que lá viam uma terra de oportunidades. E de certa forma, isso persiste até hoje em alguns setores como as startups de todo o mundo que migram para o Vale do Silício.
Por essa tradição histórica, há muito o quê aprender com a educação empreendedora de lá, em especial, com o que não fazer.
Não sei como você avaliaria a FedEx, mas a primeira nota que ela recebeu, mesmo antes de ter sido criada foi C. Isso porque a nota foi melhorada. Era para ter sido pior. Pelo menos é o que confidenciou Fred Smith. Em 1965, ele era estudante da Yale University e precisava elaborar um plano de negócio para uma das disciplinas do seu curso de Economia. Imaginou um negócio de entregas expressas, que concorreria diretamente com os Correios dos Estados Unidos. Seu professor, ao ler o plano, sentenciou: “O conceito é interessante e bem formulado, mas para ganhar uma nota melhor do que C a ideia precisa ser viável”.
Seis anos depois, em 1971, o plano de negócio nota C viraria realidade com o nome de Federal Express ou simplesmente FedEx. Até hoje Fred Smith, o fundador da FedEx, não sabe como este C o ajudou a planejar um negócio melhor. Ele nem mesmo se lembra direito se recebeu um C ou não. Mas o fato é que o tal professor de Yale entrou para a história do empreendedorismo como o cara que quase não aprovou um grande negócio.
Mas será que planos de negócio de outras empresas de sucesso teriam sido aprovados? Steve Jobs e Steve Wozniak nem sabiam o que era um quando começaram a Apple em 1976. Mas não teriam sido aprovados por Ken Olson, fundador da Digital Equipment Corporation (DEC), a ‘bam-bam-bam’ de tecnologia da época. O argumento de Olson era simples: “Não há nenhuma razão para alguém querer ter um computador em casa”.
Mesmo vários negócios recentes como o Twitter ou a AirBnB teriam suas ideias de negócio criticadas. Por que alguém iria ler mensagens de 140 caracteres sobre o que eu estou fazendo ou pensando agora? E o que responderia se alguém perguntasse se você estaria interessado em se hospedar no sótão de uma casa em São Francisco, Califórnia, dormindo em um colchão de ar?
Até o “plano de negócio” de Cristovão Colombo foi criticado e até zombado. Afinal quem era aquele genovês maluco com um mapa debaixo do braço que jurava ser possível chegar as Índias pelo Ocidente? Ele apresentou seu plano durante sete anos para potenciais investidores em Portugal, Veneza, Genova, Inglaterra até chegar aos reis de Leão e Castela. Antes dos imigrantes, foi Colombo quem primeiro vislumbrou a “América” como uma terra de oportunidades.
Por tudo isso não se abale com frases como “Mas já tem!”, “Isto não vai dar certo!” ou “Isto já foi tentado antes”.
Troque essas afirmações arrogantes por questionamentos que perdurarão por toda a sua carreira empreendedora como: O que faço para ser melhor do que “já tem”? O que faço para aumentar minhas chances de sucesso? O que posso aprender com o que já deu errado no passado?
Pensando assim, você sempre ganhará uma nota C… de certo. Henry Ford costumava dizer que se você acredita que pode ou acredita que não é capaz, estará sempre… certo!

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