Franqueados, desconfiem quando a ‘esmola’ é demais

Franqueados, desconfiem quando a ‘esmola’ é demais

A relação franqueador/franqueado é formalizada por um contrato em que as partes têm direitos e deveres, responsabilidades e prezam por um bem comum, que é a marca. Nada é gratuito, a menos que haja algum acordo específico em benefício de um propósito

Ana Vecchi

20 de dezembro de 2019 | 21h22

Aposto que muitos devem ter pensado “como assim?”, imaginando que eu esteja no ápice da insanidade me referindo desta forma à relação de franqueadores com suas redes franqueadas.

Essa é uma relação comercial, formalizada por um contrato em que as partes têm direitos e deveres, responsabilidades e prezam por um bem comum, que é a marca. Nada é gratuito, a menos que haja algum acordo específico em benefício de um propósito. Pode haver flexibilidade, concessões, bônus ou qualquer outro termo usado no mercado, mas há uma razão maior do que o valor financeiro negociado.

A pergunta que não quer calar é por que um franqueador, ou funcionário de franqueadora, assedia franqueados de outras redes concorrentes e oferece um mundo de oportunidades, descontos, isenção de royalties e outras taxas, total flexibilidade na gestão de sua rede, entre outras benesses, por conta de troca de bandeira desses franqueados? É pelo ponto? Pela clientela formada? Por que não está conseguindo atrair franqueados pela maneira mais comum?

Por que tanto prêmio para quem vira bandeira e corre o risco de ser pego por infringir algumas cláusulas do contrato firmado com o, até então, seu franqueador? Nos contratos de franquias é comum haver a cláusula de non-compete, que define que os franqueados, ao saírem da rede ou não terem seus contratos renovados, não podem atuar em negócio concorrente. Isso porque o franqueador transfere todo o know-how ao franqueado, ensina a operar um negócio que envolve todos os aspectos operacionais, técnicos e gerenciais, o que torna possível a quem nunca tocou ou trabalhou em outro negócio a oportunidade de empreender e se tornar conhecedor daquele tipo de mercado. Esse é um dos grandes trunfos do franchising. E algo que qualquer franqueador precisa proteger.

Foto: Unsplash

Mas, do outo lado, há os que são espertos, querem ganhar mercado rápido em cima de quem construiu uma marca, aprendeu com os próprios erros, investiu recursos variados, entre eles tempo e noites sem dormir. Acha que basta chegar nas lojas de shopping ou de rua, abordar, falar mal do franqueador e prometer, inclusive, que consegue um “laranja” para assumir a operação e constar no contrato de franquia, enquanto o franqueado não puder assumi-la devido à cláusula de non compete. Como resistir a propostas tão tentadoras?

Quem propõe coisas assim é sedutor e pode defender que é uma prática de mercado, faz parte do jogo de ocupação de mercado e vai ser bom para todo mundo. pPara quem mesmo? Quando é bom iniciar um relacionamento comercial com quem te propõe colocar um laranja no seu lugar? Se você precisar brigar por algum direito seu, como franqueado da nova marca, qual é seu nome mesmo? Você tem algum contrato assinado?

Ser conhecido, amigo ou parente de alguma pessoa cítrica (o laranja) não resolve muito quando você é a parte frágil da relação. E, se este futuro franqueador indicar alguém que você não faz ideia de quem seja, vai apenas ajudar você a tramar a sua própria armadilha. Que relação ética e transparente pode-se esperar de algo que começa assim? Como a conta vai fechar tendo franqueados que não pagam um monte de coisas que sustentam, principalmente, a existência e estrutura da empresa franqueadora? Onde estão embutidos estes valores? Em produtos, talvez?

Se a pessoa aceita virar a bandeira, ter um laranja e não dar satisfação a ninguém porque é assim que as coisas funcionam, que perfil este novo franqueador espera ter de franqueados? De pessoas que defendam a marca dele, independente de quem ele seja, aja, proponha? Se o resultado não for muito acima do que se obtinha antes e com mais suporte e recursos para tronarem-se referência no mercado, pode esquecer engajamento, alinhamento, satisfação e franqueados engajados.

Nestas propostas o carinhoso “tamo junto” só existe até o franqueado chutar o balde, rescindir o contrato dele, aceitar o laranja – pela via que for, passar a se esconder – diferente do que sempre foi, não poder tocar no negócio que havia escolhido por conta do non compete e passar a ser espectador das próprias escolhas. Aí vem o fatídico “o que fui fazer?” seguido de arrependimentos. Cada um reage de uma forma. Há os que deprimem, os que ficam com raiva de si e, depois, dos que causaram tais decisões. Franqueado é quem assinou o contrato e laranja não faz isso. Não existe laranja, entende? Você virou um limão bem azedo, duro, que não dá para fazer limonada alguma. Você está sozinho.

Vamos para a não corrupção, viver o franchising sustentável, fazer o melhor uso das palavras ética e transparência, olhar no olho do atual franqueador e dizer “foi você e sua marca”, não quero abrir mão de uma relação que vale minhas horas de sono e a certeza de que, juntos, estamos construindo a melhor rota, ainda que com obstáculos, buracos e ruídos. Mas com honestidade vamos ter o prazer da vitória juntos.

Esse é um assunto ácido para terminar o ano, mas não posso deixar de provocar as reflexões necessárias. Não caia em roubada, franchising!

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