Floresta de pé é o foco de negócio de impacto que comercializa produtos amazônicos

Floresta de pé é o foco de negócio de impacto que comercializa produtos amazônicos

Empreender com impacto socioambiental é caminho para desenvolver a bioeconomia; empresa Apoena, na Amazônia, distribui para outros Estados produtos que tira da terra de forma sustentável

Maure Pessanha

15 de dezembro de 2021 | 16h41

O estudo A onda verde, desenvolvido pela Climate Ventures e Pipe.Labo, identificou oportunidades para empreender e investir com impacto socioambiental no Brasil. Entre os setores-chave, destaco as soluções que são associadas às florestas e ao uso do solo – aquelas que endereçam desafios como os impactos da produção de alimentos em larga escala, perdas de produção ao longo das cadeias de valor, assistência técnica ao produtor e rastreabilidade de produtos.

No mapeamento, as oportunidades voltadas ao setor florestal mostram a importância de viabilizar práticas de gestão que promovam a conservação e, ao mesmo tempo, mostrem-se atrativas do ponto de vista financeiro. Elas compreendem, de fato, tanto soluções tecnológicas como também as voltadas à inovação na gestão dos negócios – o que aponta tanto para a necessidade de fortalecimento da produção florestal quanto para a integração com mercados e cadeias de valor mais estruturadas. É nesse contexto que se insere a Apoena.

Fundada em 2020 por Onesimo Maurillo Jacinto e Kátia Piêra Batista Gomes – no município de Tefé, coração da Amazônia –, a Apoena atua com mais de 50 extrativistas locais, que fornecem ao negócio de impacto socioambiental produtos como óleos vegetais e essenciais, farinha regional e frutas típicas da floresta.

Apoena comercializa produtos como farinha de mandioca, andiroba, copaíba e óleos vegetais, que tira da floresta valorizando boas práticas de extrativismo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão-13/10/2015

Com os insumos de base florestal, que antes eram vendidos in natura pelos produtores da floresta amazônica, a empresa desenvolveu soluções de beneficiamento e de venda dentro de programas norteados por boas práticas no extrativismo, qualificando a comercialização com melhores arranjos produtivos, tornando mais eficiente o processo de ponta a ponta. Importante notar que a empresa resolve a questão logística, que é um grande desafio na região, dada a nossa extensão territorial. Hoje, São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro estão no mapa de cidades atendidas.

Na prática, a Apoena comercializa a farinha de mandioca Seu Joca, andiroba, copaíba, breu-branco, castanhas e óleos vegetais. No cerne do trabalho da dupla de empreendedores, a valorização dos pequenos produtores regionais – dos municípios de Uarini e Tefé; moradores nos entornos dos rios Japurá, Juruá, Coari Grande, Baiana e Igarapé-Açu –, cidadãs e cidadãos brasileiros que pautam o próprio cotidiano com impacto socioambiental e econômico positivo.

A vantagem proporcionada pela Apoena vai além da automação social da produção local, focada em melhorar as condições de trabalho dos produtores rurais sem eliminar postos de trabalho. As estratégias desenvolvidas pelo negócio incluem a disseminação de informações, via workshops e treinamentos, para a diminuição do uso do fogo; a valorização da ‘floresta em pé’; práticas de uso responsável do solo; aumento de renda com uso de práticas que elevam a produtividade; e a difusão de experiência pelo exemplo – que é genuíno e envolve um método de aprendizagem dos povos ancestrais.

Entre os clientes deste negócio de economia circular escalável estão indústria de alimentação, representação comercial, supermercados, empórios, restaurantes, cafés e até compradores avulsos. Como visão de futuro, o empreendedor aponta que a meta é expandir as parcerias para potencializar as ideias inovadoras. A abundância de matéria-prima – representada pelos resíduos de espécies nativas – pode impulsionar uma destinação ecologicamente sustentável como carvão ativo, biomassa e tijolo ecológico, entre outros.

Empreender com impacto socioambiental e dentro da lógica da ‘floresta em pé’ é um excelente caminho para desenvolvermos a bioeconomia no Brasil. Esse é um tema, aliás, que pretendo abordar em outras colunas, aqui, no Estadão PME.

* Maure Pessanha é empreendedora e presidente do Conselho da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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