Feiras para empreendedores e a chance de fazer escolhas mais acertadas, desde que se queira

Daniel Fernandes

17 de abril de 2018 | 10h58

Foto: Leandro Martins / Ricardo Yoithi Matsukawa - ME


Tive a oportunidade de, mais uma vez, palestrar na Feira do Empreendedor organizada pelo SEBARE e gosto muito do contato com as pessoas que vão nos assistir, com sede de informações, da dica sobre a melhor franquia ou negócio para investir, quais os cuidados que devem tomar para não caírem em roubadas e os passos para o sucesso.
Acredito que meu papel seja orientar para abrirem os olhos e possibilitar que façam as escolhas mais corretas e, para tanto, é preciso mostrar o que pode dar errado, uma vez que já estão em um auditório para ouvir sobre os conceitos e boas práticas do Franchising, pois gostam do tema e estão pensando em investir, de alguma forma, na “formula mágica da garantia do sucesso” – a qual não existe.
Até aí normal, nenhuma novidade.
Mas, o que por um lado é interessante – situações recorrentes – as mesmas dúvidas, a mesma ansiedade pelo sonho do negócio próprio, o mesmo desconhecimento, a admiração por quem conhece tanto o mercado e o comportamento das empresas, assim como os riscos de empreender e alerta sobre eles, por outro lado me incomoda, muito, o fato de que, por mais que apresentemos o viés negativo ou perigoso de investir em quem sabe tão pouco quanto os que estão, ali sentados, assistindo as palestras, ainda assim estas pessoas querem ouvir aquilo com o que estão sonhando.
Vamos aos fatos para exemplificar. À medida que vou apresentando o que torna o Franchising uma estratégia que possibilita riscos menores a quem investe, exemplifico com o que não pode ser feito, o papel das partes, o que é um Franqueador amador, a legislação, tudo que aquele momento permite mostrar, ou até mesmo escancarar, para que não percam o dinheiro que foi tão difícil de juntar. Às vezes, a poupança de uma vida inteira está à nossa frente, nestas palestras e nossa responsabilidade é enorme, se bem me entendem.
Olhos arregalados, mãos nas testas, a cutucada na pessoa ao lado: “ufa, quase me meti numa dessas”, sorrisos tensos ou aliviados, o dedo indicador que levanta e abaixa na dúvida se perguntam ou não, pois não querem ouvir que não deveriam comprar uma ou outra franquia que já está se mostrando inadequada, pelos motivos expostos. Mas, e o sonho? O ideal de ser empreendedor, de ser dono do próprio nariz, de não ter que dar satisfação a mais ninguém, o status de dono e a admiração da família e amigos torna, muitos deles ali à minha frente, míopes e reféns de seus ideais.
A troca de olhar, comigo, pede que sejamos cúmplices, que eu entenda que, com ele ou com ela, será diferente. O sorriso suave e doce sela um acordo tácito de que vou ouvir falar do sucesso deles, já que querem meu contato para contarem tudo que deu certo, ao contrário do que aconteceu com os outros. “Eles” é que não eram tão bons ou a franqueadora deles era pior que esta que escolheram. Vão crescer juntos e fazer uma história diferente de todas aquelas que, em igual situação, quebraram, faliram, sumiram do mercado e puseram a culpa no perfil dos franqueados que não era bom.
Houve quem chegou e falou forte ou duro até, que tinha resolvido todas as dúvidas e aberto os olhos e que não iriam tirar um centavo daquele bolso, sem que provassem o profissionalismo, a estrutura, o conhecimento e domínio do negócio. Que alívio! Dois ou 3 a cada 50. E muitos outros, ainda querendo pós palestra me convencer com todos os argumentos e documentos, da fria que iriam entrar. Agora, mais conscientes inclusive.
Bom seria que, muitos desses franqueadores, estivessem ali conosco ou já tivessem feito seus exames de consciência e da responsabilidade que têm com estas pessoas e suas famílias, mas quero crer que têm o mesmo sonho de se tornarem a maior e melhor franqueadora do Brasil, se espelham nos melhores, mas desconhecem o longo e árduo caminho que percorreram.
De qualquer forma, faço meu papel de buscar conscientizar de que somos responsáveis pelas nossas escolhas e que, para escolher o melhor parceiro a investir, não é preciso abrir mão de seus sonhos, apenas o cuidado de não torná-los pesadelos.
Ana Vecchi é professora e pedagoga pela PUC-São Paulo, com especializações em administração de marketing pela Fundação Getúlio Vargas (SP), planejamento estratégico de marketing pela ESPM e MBA em varejo e franquias FIA/PROVAR. É professora universitária, instrutora e palestrante em associações e universidades. Co-autora do livro A Nova Era do Franchising.

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