Fazer aquilo que gosta exige mais do que talento

Daniel Fernandes

02 de julho de 2014 | 06h20

Leo Spigariol, da De Cabrón, escreve toda quarta-feira
Uma das melhores coisas da vida é fazer o que se gosta e receber (bem!) por isso. Não? Cada pessoa deve ter suas qualidades e defeitos. Porém, alguns, segundo a crença popular, nascem com um talento nato, virados para as estrelas, uns iluminados, prontos para brilhar.
O universo conspira para a felicidade deles e tudo dá certo com a maior naturalidade, como se não precisassem fazer esforço algum. Não? Agora, você, reles mortal, tem de se levantar cedo todos os dias, enfrentar um trânsito infernal, uma cidade caótica para passar o dia fazendo… aquilo que odeia. Não? Você pode (e deve) sair da zona de conforto incômodo, se rebelar, encontrar aquilo que ama fazer, descobrir o seu talento nato, adormecido, e desbravar o mundo, conquistá-lo, feito um Cristóvão Colombo dos novos tempos. Não?
Mas qual seu verdadeiro talento? Será que ele existe? E se não existir? O que fazer?
Digamos que você não tenha talento nato, adormecido ou inconsciente. Digamos que você só tenha talento para… algo como organizar de modo eficaz arquivos em ordem alfabética: o que fazer então? Será esse um talento digno que lhe trará sucesso e os louros da glória?
Vivemos num mundo de extrema exposição de privacidade e de insana valorização da “beleza” (independentemente do que isso venha a ser ou significar). Nesse mundo, fazer algo significa brilhar, colher os louros, ser invejado e admirado. E invejado por fazer algo que lhe dá visível prazer.
Você, que não descobriu seu talento, ainda, é convidado a buscar isso, porque o Sol nasceu para todos, não?
Talvez você nunca descubra esse seu talento. Ou, talvez, passe a vida buscando esse fazer que te cause prazer, errando de bar em bar. Porque fazer aquilo que gostamos (e isso poucas pessoas contam) exige mais do que talento; exige muita transpiração. E exige também abnegação, esforço e, infelizmente, a inevitável convivência com pequenas derrotas.
Em sua busca do fazer prazeroso, provavelmente, você conviverá com uma soma incomensurável de nãos, o que tornará o fazer prazeroso mais oneroso do que se imaginava. Imagine-se no lugar de Michelangelo diante de um teto imenso a ser preenchido com tinta e uma dose de narrativa bíblica. Ou, sendo mais cruel, imagine-se um Vincent van Gogh produzindo quadros com muito prazer, mas nenhum tostão no bolso e uma orelha a menos.
Como dizem, work hard, have fun. Mas work muito hard primeiramente.
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