Existe uma receita capaz de garantir o sucesso do empreendedor?

Daniel Fernandes

19 de abril de 2013 | 06h51


Nesta semana, Adriane Silveira, nossa empreendedora blogueira das quintas-feiras, postou uma dúvida: deveria trabalhar para um concorrente ou não. Se tiver uma resposta para esta questão, deixa-a registrada como comentário em seu post.
Pedro Chiamulera, que escreve às segundas, deu dicas de comércio eletrônico e Renato Steinberg deu dicas sobre sociedade.  Juliana Motter, que escreve às quartas, ainda continua curtindo seu descanso, já que ainda está de férias. Todos os posts da semana são novamente relevantes pois nos fazem refletir sobre as dúvidas, dilemas e desafios diários do empreendedor.
Algumas são mais técnicas como a discussão sobre comércio eletrônico, outras são mais desconfortáveis como lidar com um concorrente. Mas gostaria de destacar a discussão iniciada pelo Renato Steinberg sobre sociedade.
Provavelmente não há uma receita definitiva para empreender que garanta o sucesso do negócio, mas com certeza há receitas com menores chances de sucesso. Uma das principais é a Síndrome Winklevoss narrada em parte pelo Renato em que um empreendedor inicia um negócio sem ter a pessoa que entende da tecnologia que criará o diferencial do negócio totalmente envolvido da empresa.
Estamos vivendo um novo momento de explosão do empreendedorismo digital onde muitos querem ganhar milhões de reais (ou dólares) por meio de sites de comércio eletrônico, portais, redes de relacionamentos, aplicativos móveis ou tudo isso junto sem ter o sujeito de tecnologia da informação como sócio.
Da mesma forma que os irmãos Winklevoss contrataram um “nerd” chamado Mark Zuckerberg para desenvolver uma ideia de rede social, muitos empreendedores “digitais” estão começando suas trajetórias de empreendedores da mesma forma. É claro que há exceções. Andrew Mason, por exemplo, do Groupon, era formado em música, mas já tinha trabalhado com webdesign.
Mas costuma não ser a regra.
Outra receita que começa com falhas são as empresas que iniciam com dois sócios pés direitos (ou esquerdos). São empreendedores que têm exatamente a mesma competência técnica e as mesmas habilidades. Muitos negócios tem começado nas salas de aulas, mas ter dois engenheiros de alimentos em um negócio nascente (de alimentos) pode não ser a melhor configuração de competências e habilidades.
Alguém deverá se sacrificar para exercer funções de administração, marketing/vendas e gestão de pessoas. De novo há exceções. Dois advogados ou dois contadores podem criar um bom escritório de advocacia e auditoria, respectivamente. E pode acontecer que um dos sócios seja ambidestro e consiga executar bem funções que o outro não queira ou não execute bem como ocorreu com os engenheiros eletrônicos Marcel Malczewski e Wolney Betiol, que fundaram a Bematech, maior empresa de soluções de automação comercial do Brasil.
Marcel se provou como um excelente vendedor enquanto Wolney um talentoso engenheiro. Se a teoria dos dois pés direitos fizer sentido, uma boa receita de sociedade de empreendedores se inicia com alguém que sabe vender muito bem e outro que sabe “fazer” muito bem. Se houver uma terceira pessoa que consiga trazer equilíbrio entre vender e produzir, melhor ainda.
Walt Disney até sabia desenhar mas, no início, era Ub Iwerks quem carregava o piano da produção. E cabia a Roy Disney, a função de gerir o negócio. Por fim, é preciso que os sócios saibam e respeitem os princípios da governança corporativa e conheçam e reconheçam a importância da Teoria da Agência, que caracteriza a separação entre propriedade e gestão. Os empreendedores são os donos (proprietários) da empresa e, por isso, tem o poder de nomear e cobrar os gestores (agentes) para que atinjam seus interesses se isso estiver previamente planejado e acordado.
Como no início do negócio, os proprietários também são os gestores, pode ser mais complicado seguir os princípios da boa governança corporativa. Daí a importância de um acordo de quotistas fechado inicialmente entre os sócios sobre as obrigações e direitos de cada um, um plano do negócio que esclareça os principais estratégias da organização e um conselho consultivo, mesmo que informal, que ajude os proprietários a tomarem as melhores decisões sobre a gestão do negócio. E novamente pode haver exceções e o seu negócio talvez não precise destes mecanismos de gestão. Mas há uma receita verdadeiramente errada que é o empreendedor não parar para refletir, de tempos em tempos, sobre como o seu negócio poderia ser melhor.

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