Existe um jeito certo de errar?

Daniel Fernandes

11 de agosto de 2015 | 07h01

Empreendedores constantemente estão sujeitos a erros. Especialmente quando desenvolvemos novos produtos ou serviços que o mercado ainda não conhece. Além de saber prever quais erros podem aparecer no decorrer de um projeto e quais as maneiras de contornar a situação, outras habilidades também são muito importantes na hora de empreender.
Dentre elas, destaco a capacidade de analisar métricas, de observar a reação dos clientes, de estar apto à mudanças e de agir rapidamente quando algo dá errado, sempre pensando no melhor para a empresa. Mesmo na hora de falhar é necessário falhar direito para tornar o processo para sua equipe, investidores e todos os envolvidos o menos doloroso possível. E deixar as portas abertas para novas oportunidades.
Quando pensamos em métricas, elas não devem ser apenas positivas no quesito de crescimento e potencial financeiro. Elas precisam sustentar a sua visão para o negócio. No início de 2014, um aplicativo de expressão criativa, comunicação transparente e postagens anônimas com o slogan de “Fale abertamente” e “Seja você mesmo” foi lançado. Em pouco menos de um ano e meio, o aplicativo “Secret” conseguiu 15 milhões de usuários e recebeu 35 milhões de dólares de investimento. A maioria das métricas apontava um futuro brilhante.
Porém, o aplicativo se tornou alvo de polêmicas em todo o mundo, chegando a ser proibido temporariamente no Brasil em agosto de 2014 com a justificativa de violação dos princípios constitucionais ao permitir o usufruto da liberdade de expressão de modo anônimo, podendo, dessa forma, ser um serviço usado para o bullying virtual.
A polêmica continuou em todo o mundo e por mais que a empresa tenha feito algumas reestruturações para evitar o abuso de usuários, em abril de 2015 o fundador David Byttow anunciou o fechamento. Ele alegou que o produto que criou era muito diferente da visão que tinha quando lançou o aplicativo. O anonimato da plataforma acabou tornando o espaço um berço de comentários racistas, sexistas, fofoca de escritório e bullying generalizado.  Com esse tipo de conteúdo no aplicativo, que compartilhava uma única timeline para todos os usuários, era impossível manter-se fiel à missão da empresa, que era “ser uma plataforma que traga mais autenticidade, autoconhecimento e empatia para mundo” .
Mas Byttow foi além: ele teve todo o cuidado necessário ao fechar o projeto no que diz respeito aos envolvidos. Além de devolver o dinheiro para os investidores, ele destinou os últimos meses da companhia procurando outros empregos e projetos para o time principal do Secret. Essa atitude foi vista como louvável no Vale do Silício. Ele mostrou que sabe errar direito. Apesar de ninguém gostar de falhar, assumir os seus erros publicamente pode ser um processo de grande aprendizado e um belo gesto de humildade. Se eventualmente decidirmos largar ou mudar um projeto, é nobre se organizar para causar o menor dano possível para as pessoas que nos ajudaram a realizar esse projeto. E é essencial usar qualquer erro como aprendizado para o futuro.
* Bel Pesce é fundadora da escola FazINOVA e autora dos livros “A Menina do Vale” e “Procuram-se Super-Heróis”. Apaixonada por culturas empresariais, Bel Pesce explora diferentes cases em sua coluna no Estado PME.

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