Ex-monge budista cria startup e capta mais de R$ 100 milhões de investidores

Daniel Fernandes

13 de novembro de 2015 | 07h32


O título serve apenas para chamar sua atenção e refletir sobre o momento em que vivemos. Cresce o número de pessoas que se orgulham de estarem “correndo”, fazendo muitas coisas e coisas simultaneamente. E quando estão fazendo “nada” ficam angustiadas. Se chegam alguns minutos antes da reunião, ficam sem saber o que fazer com o tempo disponível. Permanecer em uma fila sem bateria no celular é motivo para depressão.
Na Pirâmide das Necessidades de Maslow, Wi-Fi já vem antes nas necessidades fisiológicas mais básicas. Nosso cérebro ficou viciado em estímulos variados, simultâneos e em abundância. Ele precisa estar constantemente cheio, caso contrário, achamos que estamos perdendo alguma coisa, deixando algo escapar. Nesse ritmo, muitas pessoas já não percebem os dias que estão entre a segunda e a sexta-feira e, muito menos, o que há entre sexta e segunda-feira.
Mas é preciso parar este ritmo frenético e retomarmos nossa vida de volta.
Em uma das parábolas mais conhecidas do Zen Budismo, conta-se que Nan-In, um monge bastante conhecido no Japão, recebeu um professor que queria avançar seus conhecimentos sobre o Zen. O professor toma a iniciativa e começa a falar tudo o que já sabia sobre o assunto. Enquanto isso, Nan-In enche completamente a xícara de chá do visitante. E mesmo cheio, continuou enchendo, fazendo com que o chá se derramasse pelas bordas da xícara. O professor, percebendo o fato se desespera: “Por favor, pare. Está muito cheio. Não cabe mais chá…” – pede. O monge para e, tranquilamente, explica: “Sua mente, como esta xícara, está cheia das suas próprias opiniões e especulações. É preciso esvazia-la primeiro para que eu possa demonstrar o Zen…”.
Este conto é antigo, mas cresce atualmente o número de empreendedores, executivos e empresas que se vem se incomodando com a xícara sempre muito cheia. “Quando foi a ultima vez que você parou tudo o que estava fazendo para fazer absolutamente nada por alguns minutos e esvaziar sua mente?” – questiona Andy Puddicombe, um dos empreendedores do Vale do Silício que lidera o movimento que prega a adoção da meditação, inclusive em ambientes de trabalho. Jack Dorsey, o celebrado empreendedor do Twitter e Square, tem o hábito de acordar às 5h30 para meditar. Outro que pratica a meditação, Marc Benioff, fundador do Salesforce, explica que é “é preciso limpar a mente para abrir espaço para novas ideias”. Com a mesma argumentação, a meditação se tornou tão importante para o Google que a empresa criou o instituto Search Inside Yourself para incentivar outras empresas a adotarem a prática.
Mas você não precisa ser nenhum empreendedor famoso ou trabalhar em uma empresa que valorize as práticas meditativas. Também não precisa ser nenhum monge budista e se trancar em um retiro. Chade-Meng Tan, o engenheiro de software do Google que implementou as práticas de meditação na empresa explica que você pode começar agora mesmo, fechando os olhos e inspirando e expirando bem fundo, calma e lentamente. Apenas cinco minutos neste simples exercício poderá ter um grande impacto positivo em seu dia.
Se quiser uma ajuda neste processo, baixe gratuitamente o aplicativo Calm. Escolha um dos 25 ambientes em que poderá meditar, determine o tempo (entre 2 a 20 minutos) desejado e dê este tempo à você.
Se entende inglês e busca um guia mais estruturado, experimente o Stop, Breathe & Think. O aplicativo, também gratuito, pergunta como está se sentido mental, física e emocionalmente no momento e recomenda tipos específicos de meditação.
O problema de muitas pessoas que desejam praticar a meditação é não conseguem manter a disciplina. Andy Puddicombe dá uma dica infalível para lidar com isso: “Mantenha um caderno de desculpas sempre à mão. A ideia é que quando chegar a hora de meditar e você, por alguma razão, decidir não praticá-la, anote o motivo. Pode parecer estranho, mas sempre que escrevemos uma desculpa no papel, percebemos que tínhamos tempo e que isto era realmente importante”.
O próprio Puddicombe lançou seu próprio aplicativo de meditação, o Headspace, uma das mais bem feitas e bonitas soluções para quem busca na meditação um pouco mais de si mesmo daquilo que vem sendo perdido na correria do dia-a-dia. E parece que este ex-monge budista tem acertado. Seu aplicativo é utilizado por mais de três milhões de pessoas em mais de 150 países e já captou mais de US$ 34 milhões de investidores como Jim Brewer, um dos primeiros investidores do Facebook, a atriz Jessica Alba e o CEO do Linkedin, Jeff Weiner.
Mas não se preocupe em calcular este valor em reais. Isto já foi mencionado no título. Apenas reflita se o chá em sua xícara está derramando.
Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

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