Evitando a armadilha do dono

Daniel Fernandes

24 de abril de 2016 | 11h31

Escrevo da sala de embarque. Não é a primeira vez que isso acontece – mas ultimamente parece que está acontecendo sempre – e não estou reclamando não!
Comecei a semana com um planejamento básico: treinamentos e workshops para convidados no Primo de Belo Horizonte, e captar clientes corporativos na região. E de repente, de uma cidade emendei outra e mais outra. Uma viagem de 2 dias de repente se transforma em uma semana, apenas com a mochila, notebook e 2 mudas de roupas, pulando de avião em avião, feito Ulisses aéreo.
Não é tão charmoso como pode parecer – a vida de aeroportos e aviões é longe disso – mas me sinto feliz por aparecerem algumas oportunidades num mercado recessivo, e de poder ir atrás para tentar transformá-las em negócios reais.
Muitas pessoas me perguntam como posso ficar longe da empresa, e ficam realmente preocupadas com isso. Mas, por sorte – e bastante trabalho – minha ausência é bem resolvida. E isso somente é possível graças a uma equipe capaz e competente, que segura a onda em casa.
E é sobre isso que quero escrever hoje, sem medo de ser redundante, pois já abordei a importância da equipe em vários outros textos aqui no Blog.
Indo um pouco ao começo, há uns 20 anos atrás eu li sobre a “armadilha do dono” através do fantástico Ichak Adizes, que aborda o dilema das empresas que não sabem viver sem a presença do lider. Seja porque ele é centralizador e somente ele sabe todas as respostas, seja porque somente ele tem as senhas do banco, ou ainda porque somente ele sabe ligar a máquina de vapor (tô inventando).
Geralmente o dono sempre vai ter uma alguma ótima justificativa para evitar encarar a questão, o que é justamente a tal “armadilha”. É um problema recorrente de toda empresa – seja pequena ou grande – em algum momento da vida. Eu sei, eu já estive lá. A parte mais angustiante do assunto é que quando chega o momento de explorar novas oportunidades, viajar e se ausentar um tempo, o dono se vê “preso” dentro da gaiola que ele mesmo criou, com 2 possíveis resultados terríveis:
1. Evitar de crescer por medo de não dar conta, e ficar frustrado com o potencial perdido
2. Crescer sem ter a estrutura que dê conta, e ficar arrependido com as perdas geradas
Então, quando comecei o Pastifício Primo em 2010 eu procurei soluções práticas para a armadilha, pois já tinha a ideia fixa de fazer uma pequena rede de fabricas de massas.
Sendo assim, desde o início as lideranças foram treinadas num ambiente de extrema autonomia de ação, tomando decisões difíceis através de comitês de líderes, com transparência, dando lugar ao mérito acima de tudo e um rígido código de cultura e ética. É importante destacar que eu apenas dei o inicio da ideia, pois de fato, o sistema foi sendo formando, ajustado e melhorado com toda a equipe.
É uma combinação que se provou correta, e que eu acredito que forma verdadeiros líderes e cidadãos, e nos mantêm motivados em objetivos profissionais e pessoais. A prova está de que 5 das 6 pessoas de minha equipe inicial de 2010 continuam comigo no PRIMO, e hoje são os alicerces, testemunhas e pais desta cultura original.
Assim, as novas pessoas que hoje se integram ao Pastifício Primo – sejam colaboradores, sócios ou franqueados – percebem de cara que as regras da casa são valiosas e trazem resultados objetivos. E assim conseguimos responder a perguntas difíceis:
– Como crescer com um produto artesanal?
– Como estar em tantos lugares ao mesmo tempo?
– Quantas horas tem teu dia de trabalho?
Em resumo: apenas com uma ótima equipe temos alguma chance de crescimento e prosperidade. Encontre o sei jeito de espacar da “armadilha”. Acredito que a jornada é longa. Acho que tem gente que tem esse dom natural de nascença, mas não foi meu caso. Eu tive que fazer muita burrada antes de começar a acertar. Perdi muitas pessoas boas ao longo dessa jornada, mas a dor também ensinou a não querer repetir os mesmos erros.
Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastificio Primo acredita nos 3 mosqueteiros e “um por todos e todos por um!”.

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