Estou abrindo a minha empresa no meio da crise

Daniel Fernandes

01 de setembro de 2015 | 07h17

Sem querer fazer propaganda para a marca de chocolate Kinder Ovo, mas parece que cada dia que eu abro a porta da minha empresa recebo uma “SURPRESA”, que nunca sei antecipadamente o que será. É impressionante!!!
Fato particular, mas para entender a abrangência que uma decisão pode gerar em um negócio, acabei de separar da minha esposa que também era a minha sócia. Após reuniões com diversos advogados, inclusive um deles formado em Harvard, especialista em crises societárias, chegamos a conclusão que seria melhor um dos sócios sair da empresa e acabei aceitando o convite.
Com 17 anos empreendendo em confecção, deixei muito claro que não teria interesse algum em abrir um outro negócio como um restaurante japonês, nem uma pousada em Trancoso. Portanto ficou acordado que continuarei fazer o que sei fazer, onde tenho toda a minha expertise, na confecção de ROUPA. Não perdi tempo e já lancei a minha nova marca, uma grife em uniformes, com conceito de moda, voltada ao bem estar do funcionário que usa a roupa atrelada à comunicação do cliente.

 

Através de estudos e cases nestes últimos 10 anos foi possível comprovar que o uniforme pode elevar a alta estima do colaborador, consequentemente aumentando a sua performance. Ao mesmo tempo pode fazer com que a pessoa se torne invisível. Foi feito um teste e colocaram o Reynaldo Gianecchini de gari e NINGUÉM o reconheceu. Acreditando em poder afetar positivamente a vida das pessoas, trabalharei com tecidos tecnológicos para que possam proporcionar um melhor bem estar ao colaborador, atrelado a um baixo custo de fabricação pela terceirização.
Quis compartilhar com vocês este momento muito importante na minha vida como Empreendedor, pois é muito engraçado que a primeira sensação que dá é “vou começar tudo de novo?”. Mas quando você é Empreendedor de verdade, acredita em você, acredita em todo o aprendizado que já teve na sua vida, com todos os acertos e erros, vou falar de coração, me sinto muito preparado para começar novamente.
Acredito que Deus está me dando uma nova oportunidade, quero montar uma empresa de primeiro mundo, com conceito “low cost”, que será referência para qualquer mercado. Somente como curiosidade, foi feito um estudo nos EUA das empresas que chegaram a faturar acima de US$ 100 milhões e a idade média dos fundadores quando abriram a empresa foi de 42 anos. O conhecimento tem MUITO VALOR.
Acredito que a grande sacada que quero passar para vocês é como farei isso. Vamos lá:
1 – ESCOLHA DOS SÓCIOS: já tive 72 funcionários, terceirizei toda a minha produção em estruturas muito mais qualificadas e profissionais do que eu mesmo tinha. Estou abrindo uma empresa que será formada por sócios, mas não podem ser quaisquer sócios. Convidei para o projeto 5 profissionais extremamente qualificados em suas áreas, todos a nível de diretoria, que estão em um momento de não quererem mais fazer parte de grandes corporações, mas sim querem empreender um negócio com  potencial de crescimento. A grande sacada é que todos são COMPLEMENTARES ao negócio, um será responsável pela produção | criação, outro pelo marketing, outro pela área comercial, outro pela área financeira | administrativa. Não adianta você ter 5 ótimos comerciais, não funciona, todos fazem gol e vocês perdem o jogo por não terem goleiro.
2 – CONTRATO DE GOVERNANÇA : na última sexta-feira tive uma reunião com o diretor da Endeavor, Luiz Manzano, e gostaria de agradecer por fazer parte de um projeto espetacular como a Endeavor.  Para você que quer empreender ou já empreende, fundamental ter conhecimento de primeiro mundo  (www.endeavor.org.br) . Tem um artigo no site escrito pelo renomado advogado Paulo Cesar Aragão do escritório BMA, que coloca os 3 principais pontos relevantes para um contrato de acionistas:
-> Quem manda na sociedade
-> Como você entra ou sai da sociedade
-> Quando der tudo errado, como vocês vão solucionar as divergências
Este é um dos principais pontos crucias de uma sociedade. As funções, quem faz o que, quem é o responsável pelo o que, se um dos sócios quiser sair, quem compra, quem vende, qual preço, todos estes aspectos têm de ser muito bem estudados e esgotado todas as possíveis probabilidades de acontecimentos para caso haja algum problema. A sociedade é semelhante a um casamento, quando está tudo bem, tudo está lindo, maravilhoso, quando o negócio dá  problema, você pode esperar o pior das pessoas envolvidas, infelizmente é assim!
3 -DEFINIÇÃO DO QUE VENDER E PARA QUEM : em uma época normal da economia, você pode utilizar um funil de vendas para 7 | 3 | 1, ou seja, prospecta 7 Clientes, marca reunião com 3 e fecha 1 negocio. Qual a estratégia que usaremos para abrir uma empresa em época de crise? O nosso funil será de 20 | 5 | 1. Iremos prospectar muito mais, os sócios estão trazendo carteiras de clientes para atuarmos, mas temos certeza que o trabalho será muito maior devido ao momento do pais, prospectar 20 Clientes, marcar reunião em 5 e fechar 1 ou 2 !
Será que existe algum problema em abrir a empresa na crise? Não se você estiver preparado, com muito conhecimento, muita vontade de fazer e, principalmente, fazer bem feito. Neste momento de crise (CRI$E) acredito que será necessário abrir mais mercados, não estreitando muito o seu público-alvo. Como exemplo da minha área, na empresa anterior atuávamos mais no segmento de linha de frente, nesta minha nova empresa vou atuar em todos os mercados de uniformes, profissional, promocional, escolar, alfaitaria, faremos de camiseta à sobretudo, todos os produtos no mesmo padrão de excelência de qualidade, se um mercado esta com problema, não necessariamente o outro estará.
4 – FAZER DIREITO : Estou criando uma empresa que será 100% auditável, com todos os impostos pagos, todas as contas da contabilidade muito bem feitas, por que isso é o que traz VALOR para a sua empresa. É muito importante entender que parte é o seu lucro e que partem são impostos a serem pagos. O dinheiro dos impostos não é seu, é do governo. Se eles não alocam ele corretamente, infelizmente não temos o que fazer, mas eles tem que ser pagos, já estão inclusos no preço de venda do produto, quem na verdade paga é o Cliente.
5 – FOCAR : antes de entrar na Endeavor tínhamos o negócio de uniformes e resolvemos trazer da Europa mais 3 produtos para distribuir no Brasil: um transfer alemão que já utilizávamos, um tecido de parede imprimível com adesivo e um antibactericida. Um mentor comentou que estávamos parecendo um Pato. Achei esquisito, imaginei que ser um pato não deveria ser um elogio, mas perguntei o porque da analogia. Ele disse que o pato é um animal que quer fazer tudo, mas não faz nada direito: ele não voa direito, não nada direito e não corre direito. Perguntou se já tínhamos esgotado TODAS as possibilidades no negócio de uniformes. Eu disse que não, e ele perguntou para que abrir outro negócio, para tirar dinheiro da sua vaca leiteira?
Em um mês já tínhamos fechado todos os outros negócios que estávamos abrindo. Tem gente que quer fazer tudo, aquela coisa de empreendedor maluco. E eu era uma pessoa desta Imagina que eu tinha acabado de ler o livro do Richard Branson, ele com cinco negócios, todos bilionários, achei que eu estava no caminho certo. Pensei: “vou ter quatro negócios”! Novamente parabéns para mim!
Pessoal é muito diferente você ter uma empresa com capital de giro super enxuto, com linhas de crédito minúsculas, comparado ao crédito e credibilidade que um Richard Branson tem com cinco negócios bilionários. Ele  já mostrou para o mercado que sabe fazer o negócio dar certo, tem um time de primeiríssima linha para tocar os negócios, pode ter certeza que é muito diferente.
Que ótimo que tive alguém que nos orientou, pois a chance de ter quebrado ali após alguns meses seria gigante. Estávamos tirando o capital de giro do negócio principal para colocar  nos outros que exigiriam, além de dinheiro, muita dedicação e tempo para poderem acontecer. Quem estiver neste caso, avalie ! Veja o caso do Lemann, ele pega um negócio, esgota ele todo para ir para outro.
6 – ACREDITAR EM VOCÊ E SER FELIZ: Nestes anos de estrada, já vi muitas sociedades darem errado, empresas fecharem, quebrarem, um comprar a parte do outro, ocorridos normalmente por mudanças de objetivos e direcionamentos de vida. Como exemplo acontece muito de um dos sócios querer expandir, crescer, multiplicar e  o outro quer ir para a praia na quinta à noite e voltar segunda depois do almoço, pois já está realizado com o que conseguiu. Isso vai dar briga em 99% dos casos, porque um vai achar que está fazendo mais que o outro. Já devem ter visto isso por aí!
Acredito que o mais importante na vida e também no mundo dos negócios é SER FELIZ. Este é o ponto que gostaria de deixar para quem esta pensando em sair de uma sociedade que não está te fazendo feliz. Avalie se você próprio se sente capacitado, se você tem o conhecimento necessário e caso positivo, por que não abrir o seu negócio e começar novamente? Está certo você viver um “inferno” o resto de sua vida somente porque um dia resolveu abrir uma sociedade? Posso garantir que não ! O conhecimento e a inteligência no negócio que tenho hoje me proporciona segurança para dar sequência e começar novamente. A brincadeira que faço é que somente estou mudando de avião em pleno voo, não vou pousar e decolar novamente, somente vou sair de um avião para outro!  Avalie-se  e seja feliz !
SERGIO BERTUCCI : MBA na vida de Empreendedor com muitos acertos e erros; já são 20 anos, quase quebrei 2 vezes, uma por falta de pedido e outra por um pedido muito grande.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: