Estamos de bode e a vaca indo para o brejo

Daniel Fernandes

19 de junho de 2015 | 07h28

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Em cerca de uma semana, dois treinamentos. Um para uma pequena empresa de confecção se comparada à outra, um colosso com faturamento acima de R$ 10 bilhões. Curiosamente, as duas foram criadas no mesmo ano. E também coincidentemente falei para o mesmo público: pessoas em que as empresas apostam seus futuros. Doze representantes de venda da firma de confecção e 125 executivos que estão sendo preparados para cargos-chave na grande empresa. E para as duas, o mesmo tema: Hora de inovar e empreender!
Mas a crise está na porta das duas organizações. Ainda não entrou. As vendas têm se mantido dentro do esperado, mas é óbvio que a tranquilidade dos anos anteriores já virou uma vaga lembrança. Por isso, achei que era preciso respeitar o mau humor das pessoas. Todos deviam estar de bode temendo que os negócios vão para o brejo.
Já estava preparado para o mau humor. Sempre tem um que vem e fala que em chinês crise e oportunidade se escreve da mesma forma. E daí? Não sou chinês – poderia pensar um aluno. Outro recomenda: Tire o “s” da palavra crise e crie! E aí você pensa, então pegue este “s” e coloque na palavra uma. Afinal se quer deixar alguém ainda mais mal-humorado, tente-o fazer feliz com frases infelizes.
Mas é possível estar mal-humorado e fazer alguma coisa. Caso contrário, se empacar, aí a vaca já está no brejo. É o incomodo que o faz sair do lugar. É isto que o faz mudar!
Mas quem disse que encontrei gente mal-humorada? Todos estão de bode sim. Como diz o meu xará D2: “Tá ruim pra você, também tá ruim pra mim. Tá ruim pra todo mundo, o jogo é assim.” Mas havia um clima de compreensão, de comprometimento e de cooperação nos dois encontros.
Em ambientes assim, não é preciso explicar a importância do comportamento empreendedor e inovador para os colaboradores da organização. Sabem que precisam sambar e de que lado.
Percebem que precisam ser duas, três, quatro vezes mais proativos do que costumavam ser. Não é o momento de ficar pensando que problema não é seu e nem quantas horas extras vai cobrar. Esta é atitude certa nesta hora da verdade!
Também tem a noção de que precisam fazer mais com menos. Se fizer igual, mas com menos, também já está valendo. O momento é de corte de custos desnecessários, aumento da eficiência operacional e da produtividade. Assim, sabem que mantém a conduta, sabem que seguem firme e forte na luta.
Por fim, sabem que precisam inovar quando algo não estiver funcionando. Vale para manter ou aumentar as receitas ou para reduzir as saídas de caixa. Sabem o que precisam para evoluir, sabem o que precisam para sair daí.
Durante algumas horas, conseguimos tirar o bode da sala. Foi bom para manter o canal aberto de aprendizado e compromisso. Mas é bom manter o bode por perto. Isto nos faz refletir mais sobre o presente e o futuro. E o melhor: bodes não vão para o brejo.

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