Está perdido na vida? Funcionário do Google criou startup de busca interior

Daniel Fernandes

03 de abril de 2015 | 09h59

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Chade-MengTan, ou simplesmente Meng, como ele mesmo gosta de ser chamado, começa sua palestra no Google contando uma parábola do zen budismo.
Um homem montado em um cavalo passa por outro que caminha. O caminhante pergunta para o homem montado: “Para onde está indo?” O homem em cima do cavalo responde: “Por que está perguntando isto para mim? Deveria perguntar para o cavalo. Como eu posso saber?” Na parábola, explica Meng, o cavalo representa nossas emoções. Normalmente deixamos, inconscientemente, nossas emoções nos guiarem.
Em seguida, ele mostra a foto de um homem caído no chão, mas com a perna presa à sela de um cavalo que pula agitadamente,parecendo estar em um rodeio. Consegue visualizar esta imagem? Suas emoções já o(a) deixaram na situação deste cavaleiro?
Mais uma foto: Agora John Wayne montado em um cavalo. Consegue imaginar a cena? Ele parece tranquilo, confiante e ter pleno domínio do animal.
E mostra a última foto, agora de uma pessoa que parece um artista de circo que se equilibra em pé sobre um cavalo que corre em alta velocidade. Este é o que atingiu a maestria emocional, explica Meng. Sabe dominar suas emoções e está constantemente consciente disso. E é este o estágio em que a pessoa atinge o nível de plena consciência e se torna mais feliz com sua vida pessoal e profissional.
Mas antes que pense que Meng é um monge zen budista ou algum palestrante de autoajuda, ele é engenheiro de software e dos bons. Foi o funcionário número 107 do Google onde trabalha até hoje. Como na empresa, é possível investir até 20% do tempo em projetos próprios, Meng começou a desenvolver um método de autoconhecimento e autodesenvolvimento para si, pois se achava muito tímido e introspectivo, mas vários outros colegas do Google começaram a se interessar pelo assunto.
Como qualquer outro engenheiro do Google, usar apenas o bom senso não era o suficiente, era preciso ir a fundo nos códigos do desenvolvimento pessoal para criar um algoritmo, mesmo que fosse vivencial. Para isto, juntou-se a neurocientistas da universidade de Stanford, psicólogos de Berkeley, antropólogos renomados, especialistas em várias de comportamento humano e criou o método SearchInsideYourself, que foi validado por Daniel Goleman, um dos principais especialistas em inteligência emocional do mundo, Jon Kabat-Zinn, diretor da Escola Médica da Universidade de Massachusetts e uma das referências mundiais em redução de stress e até pelo Dalai Lama.
O Google adotou o método como um dos seus programas de treinamento e desde 2007, SearchInsideYourself tem sido um dos cursos mais populares da empresa. Mas não ficou por aí. Meng passou a atuar na área de desenvolvimento pessoal da empresa e foi incentivado a criar uma startup sem fins lucrativos para ajudar outras empresas. Atualmente, organizações como Roche, Qualcomm, Federal Reserve, Autodesk, Schlumberger, Ford, Genetech, Linkedin e SAP adotaram o método e universidades como Berkeley, Vanderbilt, Georgetown, Universidade de Toronto têm incluídoSearchInsideYourselfno currículo dos seus cursos.
Qual o segredo descoberto por Meng? Nenhum, explica. O método é aberto. O livro Busque dentro de você (Ed. Novas Ideias, 2013) apresenta todas as etapas e há vários vídeos disponíveis na internet que o próprio apresenta seu método.
De fato a busca dentro de você é, conceitualmente, simples e baseia-se em três áreas de treino que você pode começar agora!
1 – Treine a sua capacidade de prestar atenção. Para que isto ocorra, é preciso que aprenda a silenciar a sua mente para que ela comece a prestar atenção naquilo que é realmente importante. No livro, dois capítulos se dedicam especialmente a este treino: Respirando como se sua vida dependesse disso e Meditação sem por o bumbum numa almofada. Quer fazer um exercício rápido para treinar isso?Feche os olhos e comece a prestar a atenção na sua respiração (como sua vida dependesse disso). Faça isto por alguns segundos. Sem querer começará a respirar com mais profundidade e mais consciência. Mesmo em um treino rápido como este se sentirá melhor, mais em contato com você mesmo(a).
2 – Treine o seu autoconhecimento e torne-se cada vez mais mestre de si mesmo(a). Repetindo o exercício de respiração anterior, comece a examinar seus pensamentos e sentimentos a partir do ponto de vista de uma pessoa externa, sem emoções ou sem identificação com ela. Apenas observe clara e objetivamente, sem nenhuma crítica ou preconceito. Meng também cita outro treino que chama de “flexibilidade de reação”. Da próxima vez que se ver prestes a “explodir” com alguém, pare por alguns segundos. “Neste espaço residem nossa liberdade e poder de escolher nossa reação. Na nossa reação, estão nosso desenvolvimento e felicidade. Uma mente calma e clara, aumenta esse espaço para nós” – explica.
3 – Treine (e crie) hábitos para ajudar outras pessoas. De todas as áreas de treino, esta é a mais fácil. Um dos exercícios citados por Meng é muito simples de ser feito: Escolha uma pessoa, qualquer pessoa, que esteja no seu campo de visão e apenas pense: Quero que esta pessoa seja feliz! Para a sua mente, isto já intrinsicamente recompensador desde que o desejo seja verdadeiro. É claro que há vários outros hábitos que você pode desenvolver como a de ajudar propositalmente, pelo menos um desconhecido todos os dias. Mas ao ajudar outras pessoas, sua mente naturalmente o recompensa!
Ao tornar esta busca dentro de você uma rotina, será cada vez mais fácil encontra-lo(a) todos os dias, cada vez melhor, mais feliz e mais realizado(a).

 

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