Escolher uma franquia do balcão do self service envolve riscos para os dois lados

Escolher uma franquia do balcão do self service envolve riscos para os dois lados

Candidatos a franqueado que pesquisam aleatoriamente e não têm perfil adequado para a marca podem resultar em perda de tempo e dinheiro para si e para a franqueadora

Estadão

25 de março de 2019 | 14h54

Por Ana Vecchi *

Qual é a proposta de um self service quando vamos almoçar? Qualidade e frescor a preço justo. E, por preço justo, entende-se acessível ou barato. Não se come salmão barato, então neste tipo de restaurante encontramos o rabo do salmão desfiado na receita “salmão gratinado”. Fica chique, delicioso e acessível.

Brasileiros têm o hábito do automedicamento, a crise ofereceu mais oportunidades aos restaurantes de self service e a internet nos trouxe a possibilidade da pesquisa para escolher e comprar, o que for, ao melhor preço.

A busca de informações para comprar franquias é uma prática muito comum quando se pensa em empreender. Às segundas-feiras, franqueadores recebem inúmeros contatos de interesse em seus sites devido às pesquisas dos finais de semana. Os corretores de franquias correm para buscar o melhor candidato, com mais capital para investir. Os executivos de expansão também se concentram para analisar os melhores perfis, conforme as ferramentas que disponibilizam para esta avaliação, aliadas à experiência que possuem, preferencialmente, nas escolhas indevidas que já fizeram.

Estamos acostumados a escolher comida desde pequenos, mas até a compra da primeira franquia não passamos por isso antes. FOTO: José Patrício/Estadão

O que quero dizer, entre outros aspectos, é que, quanto maior for a experiência de uma empresa franqueadora em franqueados que não têm o perfil adequado para tocar determinado negócio (ou nos que têm expectativas acima do que a franquia pode lhes oferecer e, ainda, naqueles que pensam que comprar uma franquia significa trabalhar menos, não dar satisfação para um chefe e fazer o que bem entender), maior a responsabilidade e a inteligência em alinhar expectativas e poder falar não ao candidato, quando percebe que tal casamento está fadado ao fracasso.

Este “não” vale muitas horas de sono bem dormido, de tempo mais bem aplicado e dinheiro economizado versus o litígio de uma franquia que não deu certo. Em média, um bom candidato custa entre R$ 8.000 e R$ 20.000 para uma franqueadora. E para um candidato, pode custar todo o dinheiro economizado em sua vida.

Portanto, ao escolher uma franquia para investir, o interessado deve, sim, fazer a pesquisa em cima de suas expectativas, do capital disponível – contando que precisará de mais seis meses de capital de giro para não tirar dinheiro do negócio para viver -, além de região de interesse, disponibilidade para se dedicar, grau de aceitação da família nesta escolha e se nasceu, mesmo, para empreender ou se para continuar a fazer parte de uma corporação. É fundamental se enxergar fazendo aquelas atividades, em que vê outros franqueados, diariamente.

Ao achar que terminou a pesquisa, deve entrar em contato com as franqueadoras e, após algumas reuniões, conversar com os franqueados – em operação e os que deixaram a rede – para saber onde mora a verdade. Jamais deve-se investir em qualquer franquia antes de conversar com os que passaram pelo mesmo processo e têm conhecimento da verdade de cada franqueadora: estrutura, domínio do negócio, suporte à rede, treinamentos e modelo de gestão.

“Até a compra da primeira franquia, não passamos por isso antes e não é tão simples quanto cuspir uma garfada de jiló”

A internet facilitou demais a pesquisa, mas o self service onde estamos acostumados a escolher o que vamos comer nos é possível porque desde um ano de idade nossas mães nos deram opções de escolha, experimentamos, engolimos ou cuspimos a comida. Porém, até a compra da primeira franquia, não passamos por isso antes e não é tão simples quanto cuspir uma garfada de jiló ou quiabo.

Self service parece algo tão simples para consumidores com fome, mas ter um negócio como esse e obter lucro envolve vários segredos que clientes nem percebem. Comer em um local desses requer experiência de todos – dono, equipe e clientes. No franchising, também. Mais ainda. O ticket médio é de milhares de reais e não entram centavos nesta conta.

* Ana Vecchi é professora universitária e pedagoga, com especializações em administração de marketing e planejamento estratégico de marketing, além de MBA em varejo e franquias. É co-autora do livro A Nova Era do Franchising (ed. Infinito, 2000).

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