Enxurradas ou tsunamis: haja força para não morrer na praia

Daniel Fernandes

04 de novembro de 2015 | 12h45

Quem nunca se sentiu nadando contra a correnteza? Ou mesmo quem nunca se sentiu com vontade, pelo menos, de fazê-lo? Entre idas e vindas de crises e euforias econômicas, sempre nos vemos diante de um quadro em que a correnteza nos arrasta. Muitas vezes são enxurradas ou mesmo tsunamis violentos. E haja força nos braços e pernas para nadar, nadar, nadar para não morrer na praia.

Nos momentos de euforia, os negócios vão bem, o empresário não dá conta dos pedidos, estrangula a sua linha produtiva e pensa seriamente em levantar aquele empréstimo, independentemente dos juros, simplesmente porque os negócios vão bem! E tudo parece encaixado para, de modo mágico, a produção crescer a ritmos estonteantes e os juros virem desenfreadamente. Ou seja, esse é o momento em que a correnteza te puxa para algum lugar distante que é uma praia paradisíaca.
Refletir sobre a possibilidade de as vendas caírem ou a coisa dar errado num momento de euforia é quase uma heresia. Apenas se deixa levar! No entanto, descobre-se que não há uma linda praia ao final do rio. Na verdade, descobre-se que, conforme a correnteza nos leva rio abaixo, o destino será daquelas quedas d’água monstruosas. Vamos todos nos afogar.  A maioria tende a amaldiçoar esse momento de puro infortúnio. Para alguns, imediatamente, o instinto te levar a dar braçadas rio acima, contra a correnteza. Diria que esse movimento é próprio daquele que pretende aproveitar as oportunidades e mudar o trajeto, ou ao menos chegar à borda do rio para uma mudança de caminho (ir a pé, quem sabe?).
Um exemplo recente, seria o preço de imóveis. Há alguns anos, imperava uma euforia insana de valor de imóveis. Os preços foram às alturas em qualquer região e perfil socioeconômicos. Imóveis até então desqualificados atingiram valores impensáveis. Comprar? Poucas ofertas, muita demanda e pouca margem de negociação. Os vendedores eram senhores da negociação.
Alguns anos depois, houve a inversão: pouca demanda e muita oferta. Os preços tendem a cair vertiginosamente. O dinheiro fica escasso e aquele que possui reservas consegue bons negócios. Ou seja, quem possui reservas consegue nadar contra a correnteza, certo? Mas onde está o dinheiro? Quem tem reservas? Quem possui essa musculatura para nadar contra a correnteza e fazer bons negócios?
Ou mesmo, que empresário, em momento tão oportuno, tem capital em reserva para alguma aquisição da infraestrutura do concorrente em momento de pouca demanda e muita oferta? Sim! O momento de crise é o momento de pechinchar e comprar e garantir investimentos altíssimos. E também o momento de inovar e sair na frente com um produto ou serviço do qual o mercado está carente.
Todavia, você estava nadando a favor da correnteza? Se sim, fez aquele empréstimo a juros altíssimos na expectativa de que realizaria vendas e mais vendas e, em pouco tempo, teria de volta esse investimento (mesmo que arrasadíssimo). E pergunto: quantos empresários conseguem conter a euforia nos momentos de euforia e tangibilizar o futuro? E, por mais que consiga fazê-lo, como colocar em prática esse princípio e não se deixar levar pela alegria de encontrar uma praia paradisíaca na qual todos acreditam e se deixam levar até lá?
Afinal, penso que, no final da correnteza, não tem queda d’água ou ilha paradisíaca, mas sim mais correnteza. Então nunca pare de nadar.
Leo Spigariol é um dos fundadores da De Cabrón

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