Entendendo o ecossistema de empreendedorismo brasileiro: Capital inicial

Daniel Fernandes

20 de novembro de 2015 | 09h09

Dando prosseguimento à cartilha sobre o ecossistema de empreendedorismo brasileiro chegamos ao tema que é o principal para muitos que pretendem iniciar um novo negócio.
De onde tirar dinheiro para um novo negócio? É a dúvida recorrente entre os candidatos a empreendedores.
Para um número crescente de brasileiros, infelizmente, é o fundo de garantia que já receberam ou irão receber agora na virada do ano quando as empresas farão o ajuste final de custos. Se esse for o seu caso, ao invés de sentir-se traído(a), agradeça a oportunidade que tem nas mãos. Se puder, leia mais sobre a trajetória de Michael Bloomberg (fundador da Bloomberg News e ex-prefeito de Nova York), Mark Cuban (dono do time de basquete Dallas Mavericks) e Bernie Marcus e Arthur Blank (empreendedores da Home Depot) e reflita como a demissão foi a melhor coisa que aconteceu para eles. Steve Jobs e Walt Disney também foram demitidos. “Você não entende quando isso acontece, mas um chute no dente pode ser a melhor coisa do mundo.” – disse Disney depois de ter sido dispensado pelo seu agente, Charles Mintz.

A segunda fonte de receita também não é novidade. Luiz Seabra, co-fundador da Natura, vendeu seu fusca para iniciar a empresa. Jair Conde também vendeu seu fusca para ajudar a esposa, Heloísa Assis (Zica), a criar o Beleza Natural, rede de salões de beleza que fatura R$ 250 milhões atualmente. O próprio Steve Jobs vendeu a Kombi que tinha. Seu sócio, Steve Wozniak, vendeu o bem mais precioso que tinha: uma calculadora HP. Juntos, eles reuniram US$ 1.250 para fundar a Apple.
A terceira fonte é usar o capital dos clientes convencendo-os a pagar antecipadamente. Meyer Nigri era recém formado quando criou a construtora Tecnica. Seu pai tinha prometido ajudar na construção do primeiro prédio, mas em uma discussão o empreendedor perdeu seu “paitrocínio”. Sem dinheiro, convenceu o dono de um terreno de Pinheiros (bairro da cidade de São Paulo) a entrar no negócio em troca de alguns apartamentos no futuro. Depois convenceu amigos e conhecidos a comprarem os apartamentos “na planta”, uma novidade na década de 1970. Algo semelhante fez o engenheiro Bento Koike ao co-fundar a Tecsis, a maior fabricante independente de pás de energia eólica do mundo. Como o cliente precisava muito do equipamento, convenceu-o que ele poderia fabricá-lo, mas precisaria receber adiantado, pois só tinha a capacidade técnica, não a financeira.
Só depois de esgotar sua capacidade de “fabricar” dinheiro é que entram em cena outras fontes que todo empreendedor deve conhecer.
Pensou em adquirir máquinas e equipamentos, precisa conhecer o FINAME, linha do BNDES oferecida por bancos credenciados em função das suas taxas serem muito mais atrativas. Além de estudar a linha, a melhor forma de conseguir este recurso é conversando com quem já fez esta captação. Se conhecer algum(a) empresário(a) do ramo industrial, a chance dele(a) já ter financiado bens via FINAME (mais de uma vez, inclusive) é bastante alta. Pergunte.
Se pretende criar um negócio a partir de uma inovação tecnologia que tenha risco e incertezas científicas, é praticamente obrigatório conhecer o programa Pesquisa Inovativa na Pequena Empresa (PIPE) da FAPESP. Acredite ou não, você pode captar até R$ 1,2 milhão para o seu negócio e este valor é não-reembolsável. Ou seja, não é um empréstimo ou financiamento e não é necessário devolvê-lo em nenhum momento. Uma dica para você entender se tem alguma chance de captar este recurso: veja os projetos que já foram aprovados aqui e faça uma busca pela área de conhecimento em que se formou. Por exemplo, se formou em Agronomia, há 113 projetos aprovados até o momento. Dê uma olhada nos aprovados e se tiver a percepção que poderia ter feito dois ou mais projetos, suas chances são boas. Mas se não entender nada, busque alguém que conheça e associe-se a ele(a).
Para uma parcela mínima, que chega a ser a exceção, de empreendedores muito competentes que tiveram ideias de negócios muito inovadoras e com altíssimo potencial de crescimento, ainda é possível captar recursos de investidores anjo que são pessoas físicas que investem em novos negócios. Você pode encontrar investidores anjo na Anjos do Brasil, a maior associação do país, e mais recentemente, em plataformas de captação coletiva (crowdfunding) como o Broota.
Mais do que acreditar que é possível captar recursos para o seu negócio, acredite que você é a exceção!
Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

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