Empreendedorismo é contagioso?

Daniel Fernandes

12 de maio de 2016 | 12h07

Estudo recente realizado na Itália tenta entender o porquê de alguns lugares serem mais inovadores e povoados de empreendedores do que outros, e parece que encontraram algumas respostas interessantes.
A primeira delas não parece ser nenhuma novidade: famílias, grupos de amigos, bairros, ou mesmo cidades inteiras, comungam da mesma cultura e, como consequência, compartilham muito mais do que um idioma ou uma ideia local – também tem os mesmos hábitos de consumo, tradições, moda, gastronomia…
E, quando esse ambiente tem empreendedores de sucesso, estes “contaminam “ os demais a iniciar seu próprio negócio, vendo o sucesso do vizinho. O estudo traz esse conceito que achei muito interessante, que é a “mudança na percepção de risco”. Ou seja, quando um empreendedor inicia um negócio de sucesso, há grande probabilidade de que os amigos e pessoas ao redor não tenham tanto receio de iniciar também o próprio negócio, já que outra pessoa já “abriu o caminho”. É como alguém que atravessa o rio na frente, e depois que chega do outro lado, os demais se sentem mais confiantes de que também poderão chegar lá, segue o exemplo.
Em resumo, o estudo afirma que empreender fica mais fácil para pessoas que cresceram (ou se desenvolveram) em lugares com altos índices de empreendedores na família, na comunidade, na escola, enfim, ao redor de si, pois desde muito cedo o jovem já considera com naturalidade a possibilidade de ser dono do próprio negócio, formatando um padrão mental mais propenso ao risco, ao esforço necessário para alcançar os objetivos desejados. E isso sem dúvida é uma grande vantagem sobre outros que não tiveram essa convivência com essas referências.
Talvez um belíssimo – e moderno – exemplo de uma comunidade assim seja Silicon Valley, na Califórnia, onde estão hoje concentradas a maioria das empresas de tecnologia de sucesso, além de uma enormidade de startups que escolheram se instalar ali para respirar o mesmo ar “contaminado” de ideias inovadoras, networking, profissionais altamente capacitados, pessoas trabalhando 24 horas por dia em ideias que têm potencial de mudar o mundo.  Aqui em São Paulo, ainda falando em tecnologia, me ocorre citar o prédio CUBO, que funciona como um ponto de encontro de empreendedores de tecnologia, investidores e acadêmicos, e reúne a elite das startups da tecnologia. Me lembro de participar de uma reunião na cafeteria e sentir no ar uma sensação muito boa de sintonia de trabalho e camaradagem. Parece que se respira um ar diferente.
Mas também podemos ir para na popular rua de comércio 25 de Março e ver que ali muitos filhos estão aprendendo com os pais os “segredos” do negócio; ou no bairro Bom Retiro, onde temos exemplos de culturas que tradicionalmente são empreendedoras e segmentadas por nichos: tecidos, maquinas, noivas, etc.
O que posso concluir é que, sem dúvida, o ambiente criativo e com outros empreendedores favorece muito o futuro empreendedor, é altamente motivador – e inspirador – estar cercado por pessoas de sucesso,  focadas e determinadas, e que são muito boas no que fazem.  Mas, é bom voltar à realidade e admitir que, mesmo que o desejo de ser empreendedor seja contagioso, as habilidades necessárias para fazer um negócio dar certo continuam sendo difíceis de adquirir e aliadas a muito trabalho duro.
Ivan Primo Bornes – o fundador do Pastificio Primo escreve toda quinta feira no Blog do Empreendedor.

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