Só sendo empreendedor de si mesmo, responderá a terceira pergunta!

Daniel Fernandes

01 de fevereiro de 2019 | 17h29

Marcelo Nakagawa *
Muitos associam o empreendedor àquele que lança um novo negócio. Essa é uma definição parcial e bastante recente, levando-se em consideração que o termo empreendedor aparece inicialmente no trabalho do economista irlandês Richard Cantillon, que, por volta de 1.710 associa o empreendedor à pessoa que tem a iniciativa de correr riscos.
Mas apenas no início do século XX que o termo empreendedor passou a assumir o conceito que se consolidou ao longo das décadas seguintes, muito em função das publicações do economista austríaco Joseph Schumpeter. Para Schumpeter, o empreendedor é aquele que sonha, é proativo, que conquista e tem prazer em inovar. No final de cada dia, o empreendedor é a pessoa que buscou viver a sua essência pessoal e verdadeira.
Neste contexto, empreendedor é um visionário que pode identificar as oportunidades e fazer de suas ideias uma realidade bem-sucedida. Ser um empreendedor não se limita às pessoas que começam os seus próprios negócios. O espírito empreendedor existe em todos os setores, em todos os níveis de carreira.
Mas os empreendedores mais notáveis são sempre aqueles que ousaram ser felizes, indo muito além do horizonte das suas razões.

Luiza Trajano, criadora do Magazine Luiza. Foto: Werther Santana/Estadão

Ainda lembro de uma palestra em que Luiza Trajano, criadora do Magazine Luiza, contou não apenas a sua história, mas sua saga como empreendedora. “Você quer ser feliz ou ter razão?” – perguntou logo no início. Se fosse para ter razão, ela não teria ido tão longe.
Liderar uma grande empresa sendo mulher em um país machista? Loucura. Iniciar o negócio em uma cidade pequena quando tudo gira em torno das grandes? Estupidez. Continuar priorizando o crescimento em cidades menores? Burrice. Ser mãe e executiva de um negócio em franco crescimento ao mesmo tempo? Não vai dar certo. Mas deu! Porque a Luiza decidiu por ser… ela mesma. Não à toa, o slogan mais conhecido do Magazine Luiza é o “Vem ser Feliz!”.

“Quando tentamos ser felizes, somos nós mesmos. Assumimos riscos, sonhamos, somos proativos, fracassamos, conquistamos e inovamos. Somos empreendedores de nós mesmos”

Mas quando procuramos ter razão, somos o que os outros querem que sejamos e passamos a ser empregados de sistemas externos. E, em muitos casos, isso se distancia daquilo que acreditamos ser a nossa felicidade intrínseca.
A médica geriatra especializada em cuidados paliativos, Ana Cláudia Arantes explica que é a terceira pergunta que será a última e mais importante em nossas vidas. Em uma palestra realizada na The School of Life ela contextualiza a terceira pergunta.
O rabino Sússia estava em seus últimos momentos, na agonia da morte, acompanhado pelo seu discípulo mais jovem e mais corajoso, que quis ficar ao lado do seu mestre neste momento. Na alta madrugada, o discípulo pergunta: Por que estás tão inquieto? Sússia se vira, olha a janela, alta da noite, a lua. Ele diz, com uma voz que tinha, mas que há muito tempo não tinha tanta força: tenho medo do Tribunal Celeste.
E aí o discípulo contra argumenta: Você? Medo do Tribunal Celeste? Um homem tão justo, honesto, cumpridor de tudo que se propôs na vida, sempre tão bondoso, sempre teve uma palavra amiga para todos que chegaram perto de você… Como você tem medo do Tribunal Celeste?
Sússia responde: Tenho medo que me perguntem por que não fui como Moisés. Mas eu posso responder que não fui como Moisés porque não sou Moisés. Podem perguntar por que não fui como Maimônides. Mas eu posso responder que não fui como Maimônides porque não sou Maimônides. O que mais me atormenta é se eles me perguntarem: Sússia, por que você não foi Sússia?
Esse é o maior medo que um ser humano pode ter no final da sua vida, explica Ana Cláudia Arantes. Os outros arrependimentos fazem parte dos momentos em que você ficou pensando se devia, se queria, se podia fazer, finaliza.
* Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper.