Empreendedores cujos produtos entregam a sua idade: Se lembrar de algum, já está ficando velho!

Daniel Fernandes

27 de fevereiro de 2015 | 07h24

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Quando eu explico nas aulas que o Luiz Seabra trabalhava na Remington, dependendo da idade média dos participantes, vejo um ou dois pontos de interrogação nas expressões da plateia.
Pessoas com mais de 40 anos apresentam apenas um ponto de interrogação: Quem é Luiz Seabra? Explico que ele co-fundou a Natura Cosméticos em 1969. Mas as pessoas mais novas também perguntam: O que era a Remington? Comento que foi uma das maiores fabricantes de máquinas de escrever. Mas uma terceira “tela branca” pode aparecer naqueles que têm menos de 20 anos: O que é uma máquina de escrever? Para a graça dos mais velhos, digo que era uma espécie de computador que imprimia cada letra “na hora” em que a tecla era digitada. Os mais novos não conseguem acreditar que havia uma máquina dessas. Nem era preciso dar um “print”? – perguntam.
Assim, se conhecer o negócio criado por Daniel Dazcal, pelo menos, você está na casa dos 30 anos. Mas se conhecer a empresa que ele trabalhava antes, deve ter 40 anos ou mais. Dazcal saiu da Sharp para fundar a Tectoy em 1987, apostando no crescimento dos brinquedos eletrônicos no Brasil. O primeiro produto, a pistola Zillion já foi um sucesso. Mas o que deixava feliz a molecada que entrou nos trinta anos agora era o Master System e depois o Mega Drive. O porco espinho Sonic ainda têm espaço no coração dos novos jovens que se viram nos trinta atualmente.
Mas se perguntar para os mais novos se querem um soft, irão questionar se é IOS ou Android. Mas os quarentões irão, literalmente, engolir em seco, lembrando de algum fato em que quase morreram com uma bala Soft entalada na garganta. O fato de funcionários saírem de uma empresa para montar outra sempre ocorreu no mundo. Empresas como Intel, Compaq e DreamWorks começaram assim. Mas na década de 1960, Armando Cepeda, Silvio Oliveira e Luiz Redoschi conseguiram algo muito vantajoso: Saíram da Kibon (com o apoio da empregadora) para criar a Q-Refresco. Tinha tudo para dar certo e a empresa emplacou vários sucessos como Ping-Pong, Ploc, Dulcora e Confeti, mas é a famigerada bala Soft que ainda causa arrepios nos que têm mais de quatro décadas de vida.
Avançando um pouco, Chita é a macaca do Tarzan para todos, menos para os que têm mais de 50 anos. Em 1945, o espanhol João Rucian Ruiz pensava em abrir um novo negócio no Brasil e entre uma gambiarra e outra, inventou uma máquina para fabricar balas mastigáveis. Como era apaixonado pelos filmes do Tarzan, não só deu o nome da macaca para a sua bala como a estampou nas embalagens. Qual o sabor combinaria com a Chita? Não teve dúvidas… Abacaxi, sua fruta favorita. Mas quem se lembra da Bala Chita vai se recordar que bala boa mesmo era a de uva.
Mas se já bateu na casa dos 60 anos ou mais, vai se lembrar do produto lançado pelo engenheiro Alexandre Behmer. Ele começou o negócio com uma fábrica de graxa em 1906. A cidade de São Paulo estava começando a se industrializar e graxa era produto de primeira necessidade para os equipamentos das manufaturas da Mooca, Tatuapé e da então nova região industrial a Vila Prudente (de Moraes). Mas sua graxa Duas Âncoras era apenas uma marca vendida para os industriais, que por sua vez, só queriam pechinchar no preço. Era preciso pensar em uma marca popular, que todos usassem em suas casas. Mas as donas-de-casa não compravam graxa, mas precisavam deixar chão brilhando… Por que não colocar vender uma cera colorida e perfumada para encerar com um esfregão? – pensou Behmer. Ali nascia a Cera Parquetina: A cera que lustra brincando!
Se entendeu o texto até aqui e lembrou de, pelo menos, um produto, já está ficando velho. Há uma nova geração que já não entende o que é “tela branca” e se explicar que fará algo “na hora”, vão achar que irá demorar muito!

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