Empreendedor tem de passar suas férias no futuro

Daniel Fernandes

12 de abril de 2013 | 07h14

Em férias no Rio, Walt Disney criou o Zé Carioca


Nesta semana você teve a oportunidade de aprender um pouco mais com o dia a dia dos nossos empreendedores blogueiros. Na segunda-feira, Pedro Chiamulera falou de cultura organizacional em empresas em crescimento, na terça, Renato Steinberg reinterpretou a história de Colombo e contextualizou sua dificuldade em captar recursos.
E na quinta-feira, Adriane Silveira deu dicas para seus clientes de primeira viagem. Mas o que mais me chamou a atenção foi o ‘não-post’ da Juliana Motter, que está de férias.
Sou um grande defensor das férias. Não em função de parar com o trabalho diário, mas pela chance de conhecer outros locais, pessoas, culturas e principalmente oportunidades. E aí vem a questão: empreendedor consegue mesmo tirar férias do seu negócio? Aqui, talvez valha a pena fazer algumas considerações sobre as férias de um empreendedor.
Pessoas normais tiram férias do passado, empreendedores tiram férias no futuro. Pessoas normais pensam em algo como: ‘Ufa… a partir de amanhã estarei de férias e não precisarei vir trabalhar’. Encerrado o período de descanso, pessoas normais voltam ao passado. Quase sempre dizem que estão com as ‘baterias recarregadas’. Mas os tipos empreendedores, passadas as férias, ficam no futuro.
Essas pessoas voltam cheias de ideias, planos e um brilho diferente nos olhos. Não à toa, Walt Disney chamava suas férias de “viagens de descobertas” e até repreendia quem perguntava sobre seu período de descanso. “Estava trabalhando”, dizia. Sempre que fazia suas viagens de descobertas, levava junto câmeras. Filmava e fotograva tudo. O futuro das suas “férias” no Brasil em 1941, por exemplo, foi o Zé Carioca e os filmes Alô Amigos e Você já foi à Bahia, lançados respectivamente em 1942 e 1944.
Poucos anos depois, outro empreendedor tirou suas férias no futuro. Em 1951, Kemmons Wilson era um empreiteiro na cidade de Memphis quando decidiu descansar e levar sua família até Washington de carro. Quase 1.400 km de estrada, algo como ir do Rio de Janeiro a Goiânia. Na estrada ia bem, mas as paradas nos hotéis eram um pesadelo. Sempre havia uma surpresa desagradável. Sujeira, algo que não funcionava e cobranças adicionais – dezessete dólares adicionais por criança, em valores atuais, por exemplo.
Ele tinha cinco filhos! Mas não havia camas para todos e sempre alguém dormia no chão. Oito dólares, acreditem, pelo uso da chave do quarto e outros oito dólares pelo uso da televisão. Algo que era anunciado por 70 dólares a diária, podia sair por 160 no dia seguinte. A ideia de construir uma rede de hotéis “sem surpresas”, com quartos padronizados, estadia gratuita para crianças com menos de 12 anos, televisão, frigobar, telefone e bíblia na gaveta nasceu ainda durante as férias.
Ele não teve dúvidas: quando retornou à cidade do Elvis, fundou a rede Holiday Inn.
Ruth Handler, junto com seu marido, já tinha fundado uma empresa bem-sucedida que fabricava utensílios domésticos de plástico nos anos de 1930 nos Estados Unidos – depois eles expandiram para a fabricação de brinquedos. Mas o futuro chegaria para Ruth nas férias de 1956. Ela já havia notado que sua filha, Barbara, preferia brincar com bonecas de papel que remetiam a figuras de mulheres adultas em detrimento àquelas de figuras infantis.
Mas ela só viu o futuro daquilo quando passeava pelas ruas da cidade suíça de Lucerna e notou uma boneca de corpo, traços e roupas adultas. Não teve dúvidas: comprou a boneca e nascia ali a Barbie, o apelido carinhoso da sua filha.
E Sam Walton, também adepto das viagens de descobertas, tem uma história interessante. Em 1984, quando ainda era o homem mais rico do mundo, veio ao Rio de Janeiro. Como qualquer ‘caipira do interior’ (neste caso de Bentoville, Arkansas) ficou deslumbrado com o mar e as praias, mas só tirou fotos de lojas, estacionamentos, prateleiras e produtos do… Carrefour.
Ficou deslumbrado com o conceito de hipermercado. Sam tinha ficado bilionário com sua rede de supermercados Wal-Mart, mas viu que o futuro seria de grandes lojas como aquelas da rede francesa iluminadas pelo sol carioca. Não teve dúvidas: voltou para os Estados Unidos e lançou seus supercenters, que hoje são o modelo-padrão da empresa.
Assim, da próxima vez que for tirar férias, não tenha dúvidas: passe as suas férias no futuro!

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