Empreendedor: Na dúvida, vá com Deus

Daniel Fernandes

21 de novembro de 2014 | 06h16

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Parece trivial mas está muito longe de ser. Blue Ribbon é um bom nome para uma marca de tênis? E você compraria um produto eletrônico da Seikikōgaku? E a Shwayder teria dominado o mercado de malas ao redor do mundo?
No momento da escolha do nome da empresa, muitos empreendedores apelaram para os deuses.  Em 1910, Jesse Shwayder, até então vendedor de malas, decidiu criar sua própria empresa no ramo e a chamou de Shwayder Trunk Manufacturing Company.
Muito religioso, deu o nome de Samson a uma de suas malas, em homenagem ao personagem bíblico Sansão. Poucos sabiam pronunciar o nome da empresa e menos pessoas ainda se lembravam da sua marca. Mas a grande maioria se interessava pela Samson, que se tornou ícone de mala forte, resistente e depois, pela Samsonite, o novo nome da empresa, sabiamente alterado por Shwayder.
Mesmo não conhecendo Shwayder, os primos Antônio Lourenço da Silva e Mário Santiago também gastavam seus neurônios para encontrar um bom nome para o produto que pretendiam lançar no Brasil em 1930. Inspirando nos sabonetes de luxo que encontravam na Europa, os imigrantes portugueses queriam lançar um produto tão bom quanto os europeus e que ao mesmo tempo irradiasse energia quando fosse usado. Por isso acreditaram que Phebo, o deus do Sol na mitologia grega, era o nome iluminado que estavam buscando.
Na mesma época, Takeshi Mitarai e seus sócios começaram seu negócio como outras tantas empresas japonesas. A ideia inicial da Seikikōgaku Kenkyūsho, ou traduzindo para o português, Indústria de Precisão Ótica era copiar as câmeras alemãs Leica. E também como outras empresas japonesas da época, começaram a nomear seus produtos com nomes que pudessem ser, pelo menos, lidos no ocidente. A inspiração também veio de personagens mitológicos. A primeira câmera da empresa foi chamada de Kwanon, deusa budista da misericórdia. Com o sucesso inicial, facilitaram a pronuncia, simplificando o nome para apenas Canon.
Por essas e outras histórias, Phil Knight sabia que Blue Ribbon (fita azul) não era um nome vencedor para os seus tênis. Quando criou a empresa em 1964 junto com seu técnico de corrida, Bill Bowerman, Blue Ribbon era o nome que, rapidamente, tinha passado para o seu fornecedor japonês de tênis, a Onitsuka (atual ASICS de Anima Sana In Corpore Sano) no primeiro pedido de compras. Mas depois, os empreendedores tomaram a decisão (considerada uma das melhores de todos os tempos na administração) de mudar o nome da empresa para Nike, em homenagem a deusa grega da vitória.
Mas só colocar nome de deuses na empresa ou produtos não adianta já que santo de casa não faz milagres. O milagre só ocorre quando a empresa fabrica grandes produtos para clientes exigentes.
Antes de pensar no nome, pense no que isto representará em termos de valores, crenças e atitudes do seu negócio. Não use nenhum santo nome em vão a não ser que pratique verdadeiramente o Namastê: O deus que habita no meu coração, saúda o deus que habita no seu coração.
 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: