Elon Musk sofreu bullying porque gostava de estudar. Qual foi sua resposta para seus agressores?

Daniel Fernandes

05 de junho de 2015 | 16h03


Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Em muitas regiões, crianças e adolescentes vão à escola para fazer tudo, menos estudar. Estudar é para os idiotas, manés, nerds ou CDFs. Os mais populares da escola são qualquer outra coisa, excetuando os que mais se dedicam aos estudos. E não raro, são estes que sofrem mais bullying.
Mas o irmão de Kimbal gostava de estudar. Seus pais o alfabetizaram e ele aprendeu a ler e a aprender com o que lia já aos quatro anos. Por isso, conseguiu entrar em uma série a frente na escola. Mas o que deveria ser uma vantagem se tornou um pesadelo.Ele era o mais novo e o menor da classe.
E como se isso não bastasse, tinha um péssimo hábito na visão dos seus colegas: gostava de estudar. Por isso, passava a maior parte do tempo sozinho, imerso nos livros de J.R.R. Tolkien, Isaac Asimov e Douglas Adams. De certa forma, aprendeu a lidar com o bullying dos colegas, afinal, muitos filmes mostravam situações semelhantes.
Mas, quando tinha 13 anos, estava sentado com Kimbal em uma escadaria da escola. Enquanto conversavam e comiam sanduíches, um garoto veio por trás e acertou sua cabeça com algum objeto. Não satisfeito com o sangue que jorrava da sua cabeça, empurrou-o escadaria abaixo. E quando chegou ao chão, outros começaram a chutá-lo, enquanto o líder do grupo pressionava sua cabeça com o pé. O irmão de Kimbal ficou uma semana hospitalizado. Mesmo com a repercussão do caso na escola, teve que retornar. Mas o bullying continuou. Seus pais não tiveram opção a não ser mudá-lo de escola para outra a mais de 30 quilômetros de distância.
Apesar do trauma, seu gosto por estudar continuou na nova escola e, posteriormente, conseguiu realizar o sonho de estudar engenharia fora do seu país, primeiro no Canadá e depois nos Estados Unidos. Junto com seu irmão Kimbal, fundou uma startup chamada Zip2, uma espécie de guia de algumas cidades, aos 24 anos. Quatro anos depois, vendeu o negócio para a Compaq por US$ 307 milhões. No mesmo ano, fundou a X.com e a fundiu logo depois com outra startup para criar a Paypal, um serviço de pagamento online. Três anos depois, em 2002, vendeu o Paypal para o eBay por US$ 1,5 bilhão. No mesmo ano, fundou a SpaceX, uma empresa aeroespacial de baixo custo. Atualmente a empresa tem mais de 3,5 mil funcionários e está avaliada em US$ 12 bilhões. No ano seguinte fundou a Tesla Motors, a atual maior fabricante de carros elétricos do mundo, com valor de mercado de US$ 25 bilhões. E três anos depois, co-fundou a SolarCity, uma das mais inovadoras geradoras de energia solar do mundo, avaliada em cerca de US$ 7 bilhões.
Aquele mesmo menino que tinha sofrido bullying durante quase todo o seu ensino fundamental, agora é a 100ª pessoa mais rica do mundo, com fortuna pessoal estimada em US$ 13,2 bilhões. Não é a fortuna que coloca Elon Musk, o irmão de Kimbal, entre os maiores empreendedores de todos os tempos, é a sua capacidade visionária de não só construir novos negócios, mas novos mercados.
Mas a violência que sofreu na escola continua a incomodá-lo. Não a pancada na cabeça, os chutes e o tempo que passou no hospital, mas o motivo que levou seus colegas a agirem daquela forma: a paixão pelo estudo.Por isso, quando anunciou que havia criado uma pequena escola para os seus filhos e os dos seus colaboradores na SpaceX no final do mês passado, chamou a atenção dos principais educadores do mundo.
Ele é um grande crítico da educação formal, em que alunos são colocados em uma linha de produção chamada sala de aula. Alunos estudam o que gostam e o que odeiam com o mesmo objetivo de passar no vestibular. Aptidão, vocação e talento, quando muito, são tratados em atividades extra-curriculares. E passar na prova, da forma mais fácil possível, é o objetivo dos alunos mais espertos. E os mais estudiosos são os idiotas que ficam tentando subir o nível e a exigência das aulas. E o mais preocupante, professores ensinam soluções de problemas do passado acreditando que se repetirão no futuro. E ensinam da forma como aprenderam no passado.
A Ad Astra, escola fundada por Elon Musk, se propõe a ensinar a identificar e resolver problemas e não como usar as ferramentas. Usar ou desenvolver novas soluções faz parte do processo do aprendizado. Outros já usam ou usaram este discurso antes, mas não eram empreendedores e cientistas visionários tentando em seus próprios filhos. Qual o futuro da Ad Astra? Ele não sabe, assim como não sabia o que ocorreria com a Paypal, Tesla Motors, SpaceX e SolarCity…
O que ele não quer são professores que fazem de conta que ensinam e alunos que simulam que aprendem. “Algumas pessoas não gostam de mudanças, mas você precisa querer mudar se a alternativa é um desastre” – diz.O aprendizado deveria ser para a vida e não para tirar uma nota mínima em um teste…
E o garoto que o espancou? “A vida é muito curta para manter rancores no longo prazo” – diz Elon Musk.
Quanto ao agressor, o papel de idiota se inverteu.

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