Elevador social quebrado: o desafio da mobilidade social no Brasil

Elevador social quebrado: o desafio da mobilidade social no Brasil

Diante do quadro, apoio a negócios inovadores como alternativa para complementar o acesso pode ser uma das soluções

Maure Pessanha

17 de julho de 2019 | 15h30

Em Capitalismo Parasitário, Zygmunt Bauman se contrapôs aos que classificavam sua visão como pessimista e sombria, apresentando a viva esperança na capacidade humana de elaborar alternativas para realidades imutáveis. Na obra, o sociólogo lembra que em todas as línguas existe uma partícula “não” que nos permite negar e rejeitar “a realidade da evidência”; há, também, um tempo verbal futuro que propicia ao homem imaginar uma gama de diferentes situações que normalmente são tidas como “óbvias”. Acredito que vivemos um momento de questionar realidades sociais inaceitáveis e construir as estratégias para formular uma sociedade diferente da que temos hoje.

O Brasil ocupa a segunda pior posição em mobilidade social, de acordo com o estudo O elevador social está quebrado? Como promover mobilidade social, conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na concretude dos dados, uma realidade na qual o futuro de uma criança brasileira está condicionado à escolaridade e ao nível de renda dos pais.

Em países emergentes, a possibilidade de ascender socialmente é quase impraticável; há pouca elasticidade intergeracional de renda. A pesquisa aponta que seriam necessárias nove gerações para que o descendente de um brasileiro – que integre o grupo dos 10% mais pobres do país – chegue ao nível médio de rendimento da nação.

Negócios inovadores, alternativa no acesso à educação. Foto: Valéria Gonçalvez/Estadão

Na prática, a OCDE mostra que a condição de pobreza é perpetuada em gerações. Enquanto a chamada “persistência” de renda intergeracional é de 20% nos países nórdicos, no Brasil atinge os 70%. A análise traz que mais de um terço dos que estão entre os 20% mais pobres do País permanece na baixa renda; apenas 7% conseguem chegar entre os 20% mais ricos.

Essa elaboração é traduzida pelo conceito sticky floor – em livre tradução, ‘chão pegajoso’ –, que descreve a dificuldade de as famílias de menor renda sair da pobreza; ter acesso à saúde de qualidade; e frequentar uma boa escola. Aliás, entre os mais vulneráveis economicamente, a probabilidade de os filhos frequentarem escolas de baixa qualidade limita as futuras opções de trabalho.

Com uma educação precária, que resulta na pouca qualificação profissional, a
probabilidade de receber um salário digno é mínima. Aos jovens com menor poder aquisitivo, legamos empregos com baixa remuneração – que mantém o atual ciclo de pobreza e desigualdade social instalada. Embora não discorde da afirmação “que sim, existe o esforço pessoal para a mobilidade social”, acredito que se apoiar unicamente nessa narrativa é algo cruel e irreal.

É preciso considerar que existe um contexto no qual o indivíduo está inserido e que por maior que seja o esforço dele, as condições não favorecem que a mobilidade social aconteça. Em igual medida, há também uma falta de visão estratégica e competitiva do país. A baixa possibilidade de mobilidade social compromete o crescimento econômico do Brasil, debilitando a produtividade. Talentos são perdidos ou subutilizados; conflitos sociais são potencializados.

No cerne desses dados, a comprovação de que educação e empregabilidade são
temas complementares e determinantes para aumentar o número de brasileiros com maior repertório, e mais aptos para o mercado de trabalho contemporâneo e futuro. Sem iguais oportunidades de educação não é possível competir de forma justa por empregos promissores e melhores salários.

O desemprego – em épocas de instabilidade econômica – afeta, majoritariamente, os brasileiros com menor nível de escolaridade. Em paralelo, vemos o aumento de vagas alinhadas às novas tecnologias, que demandam profissionais com novas habilidades. Tais capacitações ainda não são acessíveis para população de baixa renda e para grupos vulneráveis, gerando um mercado de trabalho pouco inclusivo e diverso.

Frente ao cenário desafiador, acredito ser preciso apoiar negócios inovadores que se apresentam como um caminho alternativo para complementar o acesso, qualificar a educação – em diferentes fases da vida – e dar iguais oportunidades de trabalho digno a todos.

Nesse sentido, criamos o Artemisia Lab Educação e Empregabilidade, cuja proposta é apoiar uma nova geração de empreendimentos com soluções inovadoras que tenham potencial para impactar positivamente milhões de brasileiros. Queremos construir novas estratégias para que os negócios de impacto social possam contribuir para a diminuição do enorme desafio trazido pela desigualdade.

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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