Educação e qualificação em prol da empregabilidade

Educação e qualificação em prol da empregabilidade

É preciso quebrar o atual ciclo intergeracional da pobreza e 'consertar' o elevador da mobilidade social no país que está, há muito tempo, quebrado

Maure Pessanha

15 de janeiro de 2020 | 09h00

O estudo Perspectivas Sociais e de Emprego no Mundo, conduzido pela Organização Internacional do Trabalho (IOT), em 2018, aponta que mais de 192 milhões de pessoas estão desempregadas no mundo; 430 milhões de trabalhadores de países emergentes e em desenvolvimento vivem com rendimentos entre US$ 1,90 e US$ 3,10 por dia; 60% dos trabalhadores estão no mercado informal; e 1,4 bilhão de pessoas atuam em empregos vulneráveis.

Os números mostram que vivemos um cenário mundial complexo. No Brasil, quando falamos de empregabilidade, não podemos nos restringir à análise de homens e mulheres que estão formalmente empregados. Devemos, antes, considerar diferentes modelos de ocupação e formas de trabalho, variados graus de qualificação profissional, aspectos socioeconômicos, geográficos e demográficos e, acima de tudo, os entraves que impedem que muitos brasileiros não tenham acesso a empregos dignos.

Olhar para o contexto em que estão as pessoas em situação de vulnerabilidade econômica que enfrentam os desafios da empregabilidade é compreender quais barreiras as impedem de acessar e se manterem em trabalhos que tragam realização pessoal – de acordo com os próprios interesses e aptidões – e financeira sob a perspectiva de remuneração digna e plano de carreira. A falta de acesso a uma educação de qualidade tem perpetuado a condição de pobreza pelas gerações, que afeta o pleno desenvolvimento e a qualidade de vida de uma grande parcela populacional. Entre as pessoas mais vulneráveis economicamente, a enorme probabilidade de os filhos frequentarem escolas de baixa qualidade limita as futuras opções de trabalho; aos jovens das classes sociais menos favorecidas, legamos os empregos com baixa remuneração.

Dados compilados em 2017 pela organização Todos pela Educação revelam que quase 2,5 milhões de crianças e jovens, com idade entre 4 a 17 anos, estão fora da escola. No país, 52% da população não tem diploma do ensino médio e somente 17% dos jovens adultos com idade entre 24 e 34 anos atingem o ensino superior, segundo relatório da OCDE de 2018.

Alexandre Cerqueira, um dos fundadores da Embala, empresa que conecta universitários com alunos de periferias Foto: Marco Torelli

A organização aponta, ainda, que os estudantes brasileiros estão entre os mais ansiosos e inseguros do mundo. A falta de habilidades socioemocionais – resiliência e relacionamento interpessoal – têm efeitos negativos na renda e no desempenho profissional. Nesse novo cenário de trabalho que está se consolidando e demandando mudanças urgentes, a Artemisia reuniu educação e empregabilidade, temáticas complementares e que devem ser vistas de maneira integrada, em um programa de curto prazo para aceleração de negócios de impacto social que endereçam alguns dos desafios da qualificação em prol da empregabilidade.

Nessa jornada, encontramos mais de 470 iniciativas dentro das temáticas, selecionamos e aceleramos 20 empresas em estágio inicial no Artemisia Lab Educação e Empregabilidade e reconhecemos três destaques com o apoio da Potencia Ventures e da Fundação ARYMAX.

Um dos negócios é o Embala, liderado por Alexandre Cerqueira, Jeferson Dias e Rafael Velez. A empresa social conecta universitários, recém-formados e artistas periféricos a alunos de escolas públicas e moradores das favelas do Rio de Janeiro. Na prática, oferecem aos estudantes reforço escolar nas disciplinas de Matemática e Língua Portuguesa, tendo por foco o desenvolvimento de competências técnicas de educação, alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e atividades extracurriculares, com o objetivo de desenvolver competências cognitivas e socioemocionais.

O impacto social da solução está na oferta de reforço educacional e cultural para preencher gaps de aprendizado que são mais latentes entre os alunos da rede pública de ensino. Ao mesmo tempo, oferece oportunidade profissional para universitários e recém-formados. Atualmente, a empresa social conta com 12 professores que atendem aproximadamente 100 alunos em duas escolas. O trabalho é desenvolvido com apoio da arte, cultura e hip-hop.

No Resilia, dos empreendedores Bruno Cani e Laura Barros, a oferta recai por formação destinada a desenvolver profissionais para o mercado de tecnologia, conectando-os com processos seletivos de empresas parceiras. O pagamento do curso só ocorre quando o profissional estiver empregado – ou seja, o sucesso do negócio está atrelado ao sucesso do aluno.

Bruno Cani, fundador da Resilia. Foto: Marco Torelli

Além da capacitação e da conexão com vagas de emprego no setor, o impacto social do negócio está relacionado à redução da barreira financeira para qualificação dos profissionais – um modelo inovador de pagamento que abre possibilidades às pessoas de baixa renda terem uma formação em tecnologia.

O terceiro destaque é a PrograMaria, liderada por Iana Chan e Mariana Pezarini, em São Paulo. As empreendedoras atuam com a missão de empoderar meninas e mulheres por meio da tecnologia e da programação, oferecendo cursos que combinam teoria e prática, conectando as estudantes com o mercado de trabalho. Atualmente, o negócio já formou mais de 100 mulheres em cursos e impactou mais de 300 em oficinas.

No Brasil de hoje, a boa qualificação para a empregabilidade está restrita aos que podem pagar. Em contrapartida, a maioria das famílias não tem renda suficiente para acessar as melhores oportunidades de qualificação. Um quarto dessas famílias recebe menos de dois salários mínimos por mês. Para a construção do país que queremos e merecemos, é essencial apoiar novas iniciativas inovadoras que se apresentam como caminhos para complementar o acesso ou qualificar a educação – em diferentes fases da vida – para que um dia possamos criar um cenário no qual todos e todas tenham iguais oportunidades de trabalho digno.

Mariana Pezarini e Iana Chan, fundadoras do ProgaMaria. Foto: Marco Torelli

É preciso quebrar o atual ciclo intergeracional da pobreza e ‘consertar’ o elevador da mobilidade social no país que está, há muito tempo, quebrado.

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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